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O 25 de Abril trinta anos depois

A democracia tinha de ser restaurada e foi pena que não o tivesse sido, pelo menos, logo a seguirao fim da Segunda Guerra Mundial

N/D
23 Abr 2004

Lembro-me desse glorioso dia, como se fosse hoje.

Passei o dia de ouvido colado ao rádio e olhos pregados na televisão. Ao meio da manhã os saudosistas iam-me mandando umas bocas, ora para me assustar com a mudança, ora para dizerem que o movimento já estava abortado. Mas desde as eleições para a Presidência da República de 1958 que eu estava bem esclarecido.

A memória da perseguição feroz ao general sem medo Humberto Delgado, por ter tido a coragem de se candidatar, marcou-me para toda a vida e despertou-me para a liberdade que eu nem conhecia associada à democracia. O texto que aqui publiquei e que constará dos meus futuros livros de crónicas a publicar em breve, sobre o herói que pagou com a própria vida a “ousadia” de afrontar o regime, esgota o tema sobre esse corajoso militar.

Também a passagem efémera e periódica pela república Bamus-ó-Bira, em Coimbra, no início do período da guerra colonial, marcou-me também pela tristeza com que colegas nossos eram obrigados a interromper os estudos para combater em Angola ao arrepio das suas convicções políticas. Tantos deles voltaram feridos, alguns por lá ficaram, e não poucos, abatidos psicologicamente, não foram capazes de prosseguir os estudos.

Também jamais esquecerei a greve de 1969, na qual participei e passei o dia ao lado do amigo e colega Jaselino Alves Peixoto e de tantos outros. Miserável o espectáculo dos carros militares a subir os passeios. Era toda a gente impedida de se manter parada na rua. Para trás desse histórico 25 de Abril ficava a triste memória de um sistema político totalitário, de costas voltadas para uma Europa civilizada e governada por representantes do povo.

Tivemos a primeira experiência democrática com a Primeira República de 5 de Outubro de 1910 que tentou impor os princípios da Revolução Francesa de 1789. Mas do novo regime político, saído dessa turbulenta República, só sentiram os portugueses, na carne, os efeitos negativos dessa República, a começar pela participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial ao serviço de interesses alheios.

E foi por causa dos erros cometidos nessa primeira experiência republicana que a maldição do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 veio novamente negar a democracia aos portugueses impedindo que os ventos da liberdade, que sopravam, já desde há mais de um século dessa grande pátria de Voltaire, chegassem à nossa ditosa Pátria.

E já não era sem tempo. Portugal viveu mais de quatro décadas no obscurantismo, isolado dos países de vivência democrática; escarnecido e humilhado na ONU, por causa de um colonialismo retrógrado, por já estar fora de tempo. Saímos de bandeira a rastos por não termos sabido sair a tempo e horas como o haviam feito outros colonizadores.

A democracia tinha de ser restaurada e foi pena que não o tivesse sido, pelo menos, logo a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial. Sem regime democrático não seria possível que as portas da União Europeia se tivessem aberto de par em par. Mas ao tratar este aliciante tema, ocorre-me sempre pensar no que seria o Portugal de hoje se a transição tivesse sido pacífica. Foi o que conseguiu fazer a Espanha, talvez por ter aprendido com os nossos próprios erros.

Tiremos todos o chapéu a esse grande político da transição que foi Adolfo Suárez, a quem coube a responsabilidade de operar a transição, em paz e sossego, do Franquismo para o sistema de Monarquia Constitucional. Escusada a desconsideração feita a Mário Soares na primeira festa do Primeiro de Maio, escusadas as nacionalizações a seguir ao 11 de Março de todo o sector privado que passou a descambar, com défices alarmantes; escusadas foram as Oteladas de um responsável capitão de Abril que ameaçou meter no Campo Pequeno os reaccionários que só o eram por não pensarem como ele. E mais: dissera ainda que as armas retiradas dos quartéis estavam em boas mãos.

Em suma, escusado, sobretudo, o chamado Verão quente com todos os exageros dos dois extremos: da direita e da esquerda. É chegada a hora da reconciliação. Jorge Sampaio e Durão Barroso prometem dar o bom exemplo. O nosso primeiro-ministro começou bem, estendendo a mão a nosso Nobel José Saramago que estupidamente havia sido discriminado, privando-o de concorrer a um honroso prémio.

O pelotão da frente está ainda longe. Políticos que ponham acima de tudo o interesse nacional procuram-se. Que na administração pública a escolha seja feita exclusivamente por critérios de competência. Acabe-se com a tendência de jobs for the boys. Que a escolha não se faça segundo a cor política. Sem bom timoneiro jamais encontraremos o norte a que também temos direito. Convém reconhecer que não fomos os únicos a ter dificuldades em acertar o passo.

A História dá-nos inúmeros exemplos das dificuldades que uma França se viu para se desembaraçar da autocracia monárquica, A Inglaterra ainda durante algum tempo combateu, na América, os seus próprios filhos, negando-lhe o natural direito à independência. Claro que nós tivemos dois inimigos: um à direita a resistir para não perder privilégios e outro à esquerda a lutar na rua no sentido de impor um novo regime de força que continuasse a abafar a voz da liberdade de um povo cansado de ser silenciado. Há um défice de pedagogia política.

Abaixo as ambições partidárias que colidam com o interesse nacional. A preocupação dos governos tem de ser exclusivamente o interesse da coisa pública. O poder não deve ser disputado como os cães famintos disputam, na rua, um osso.

Ainda não houve revolução de mentalidades, a nível dos cargos electivos, ao serviço da democracia, passando por sindicatos, Assembleia da República, autarquias, etc., etc. Enquanto os escolhidos não praticarem a cultura da solidariedade nacional, no desempenho das suas funções, este país não sairá da cepa torta. E para isso não se lhes deve pedir que se perpetuem no poder para não se virem a acomodar.

Ministros, deputados, autarcas e sindicalistas de todo o país uni-vos. E todos juntos, de mãos dadas, sairemos do túnel escuro em que nos encontramos na busca da luz da esperança de um Portugal renovado.




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