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Reforma do Ensino Superior: um desafio para a Europa

É este o desafio que, urgentemente, importa encarar e vencer

N/D
22 Abr 2004

Desde uma boa parte do período medieval até ao século passado, foi evidente a hegemonia cultural e educacional da Europa. Mercê da influência das ordens religiosas cristãs e do relevantíssimo papel da Igreja Católica na conservação e difusão das culturas clássicas da Grécia e de Roma, foi possível criar, nas catedrais e mosteiros, escolas onde se ensinavam as chamadas artes liberais: gramática, retórica, dialéctica, aritmética, geometria, astronomia e música.
A partir do século XII, com a criação dos primeiros Estudos Gerais em Bolonha, Paris, Oxford, Cambridge, Toulouse, Montpellier, Salamanca e Lisboa/Coimbra, entre outros, aquele ensino claustral deu lugar às primeiras universidades europeias, geralmente fundadas a pedido das autoridades eclesiásticas, sob o patrocínio dos monarcas e mediante autorização papal. Foi nessas novas instituições que passou a ministrar-se o ensino, a fundo, da Teologia, do Direito Civil e Canónico, da Medicina e das Artes.

Tal como nas escolas conventuais, os estudos gerais eram abertos a todos os estudantes, nacionais e estrangeiros, reinando em todos eles um espírito ecuménico que constituía, por assim dizer, a sua imagem de marca.

Os estudantes e professores medievais, mais do que os do nosso tempo, seguiam o ensino de várias escolas ao longo da sua vida, mobilidade esta certamente potenciada pelo uso da língua latina e pela faculdade de que gozavam os licenciados de ensinar em qualquer parte do mundo cristão, sem necessidade de qualquer outro exame.

As reformas introduzidas nas Universidades na época renascentista e, posteriormente, na Idade Moderna, por influência das ideias iluministas da Revolução Francesa, permitiram adaptar o ensino superior às novas ideias e filosofias dominantes.

Porém, com o progresso tecnológico e científico operado no século XX, designadamente no domínio da cibernética e das telecomunicações e o advento da nova sociedade de conhecimento, tornou-se evidente a necessidade de reformar os sistemas de educação e formação superiores, mormente nas Universidades da Europa latina.

Num recente exercício de ordenação feito pela Universidade Jiao Tong, de Xangai, foi elaborada uma lista das primeiras 500 universidades mundiais, entre as quais figura apenas, em 381.º lugar, uma universidade portuguesa – a de Lisboa -, sendo que, de entre as primeiras cem melhores, 60 são americanas e 27 europeias, predominando entre estas as do Reino Unido e da Alemanha e, ao nível dos países de média ou pequena dimensão, a Suécia e a Holanda, cada um com três universidades.

Embora os parâmetros utilizados pelos investigadores daquela universidade chinesa sejam apenas de carácter científico (e mesmo esses não abrangendo critérios globalmente pacíficos) e, consequentemente, de âmbito limitado, não é possível escamotear o valor indicativo do referido estudo. Perante a evidência e significado daqueles números, impõe-se que nós, portugueses e europeus, reflictamos sobre eles, sobretudo tendo presente que os Estados-membros da UE fixaram em Lisboa, em 2002, o objectivo de fazer da Europa, até 2010, a sociedade do conhecimento mais dinâmica do mundo e tornar os seus sistemas de educação e formação referências mundiais.

A par da necessidade de desenvolver e multiplicar as bolsas de estudo aos estudantes dos programas Erasmus e Leonardo – que, no decurso das últimas duas décadas, permitiram que mais de um milhão e meio de estudantes beneficiassem de um período de estudos ou estágio profissional num outro país europeu -, é tempo de reformar o ensino superior. Sem este não será possível formar o capital humano imprescindível à tão desejada sociedade do conhecimento, com os consequentes benefícios ao nível do bem-estar económico e social dos povos, não apenas da Europa, como do resto do Mundo.

É este o desafio que, urgentemente, importa encarar e vencer.




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