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Os mistérios de Abril

Estamos ainda longe, muito longe de entender os mistérios de Abril. Há mudanças evidentes com causalidades recônditas

N/D
22 Abr 2004

É mais que óbvio. Não há apenas um 25 de Abril.
Neste momento e a esta distância, haverá, dentro de cada cidadão português, uma revolução diferente, com uma flor ou um espinho ou uma espingarda. Muitos elementos concorrem para que um acontecimento único, real, incontestável, tenha leituras diferentes e até opostas. Mais complexo se torna quando aprendemos com a história, que não existe, nunca existiu, nenhum acontecimento claro desde as origens ao desenlace.

Mesmo quando apenas uma pessoa entra na sua urdidura, isso corresponde a uma multidão de invisíveis e a um somatório de indecifráveis nas suas causas e consequências. Os porquês de uma revolução são narrados pelos contadores da história. Mas, como todas as histórias, sempre restam ângulos por descobrir, explicações por clarificar, motivações por compreender. E quando se entra no carro das grandes movimentações, mais complexa se torna a leitura objectiva de um acontecimento aparentemente óbvio.

É por isso que as análises simplistas de qualquer facto, nomeadamente do 25 de Abril trinta anos depois, se revestem de uma efabulação redutora e ridícula. Quando nos aproximamos dos agentes que lhe estiveram próximos: políticos, militares, culturais, religiosos, adultos, juvenis e senis, mais cautelosos nos tornamos e mais prudentes nos sentimos na explanação de prós e contras, exaltações e anátemas. O que parece evidente é o mais perigoso. Ilude, é pouco exigente em explicações e oculta habilidosamente teias infindáveis de comportamentos cruzados.

Ainda está por explicar por que, das espingardas de Abril, apenas saíram cravos. Mas que ninguém se precipite em ostentar epopeias ou cumplicidades. Estamos ainda longe, muito longe de entender os mistérios de Abril. Há mudanças evidentes com causalidades recônditas. A análise da revolução ainda vai no adro.




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