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Voto em branco

Andava o mundo político português preocupado com o lugar cimeiro que a abstenção iria ter, nas eleições para o Parlamento Europeu, quando dos lados do Mediterrâneo, propalada pelo Nobel português da Literatura, nos chega a proposta para os eleitores, na referida eleição, «votarem em branco».

N/D
20 Abr 2004

O objectivo da proposta tem muito a ver com a recente visão que Saramago faz da «lucidez» – não sei se própria, se alheia – e que, como se sabe, depende muito da idade em que se faz o citado «ensaio».
Anos atrás, em pleno império soviético, talvez o conhecido escritor não ensaiasse a mesma visão e considerasse a proposta disparatada.

Afirma-se e escreve-se que votar é um dever.

Ora, embora o não pareça, entre a abstenção e o «votar em branco» há uma certa analogia.

Ambas as situações, apesar de legais e aceitáveis sob o ponto de vista da jurisprudência eleitoral, apresentam de comum uma determinada alergia e um pronunciado alheamento da finalidade do sufrágio.

Se na primeira situação, o eleitor prima pela ausência e não influencia o sentido colectivo do voto; na segunda, o eleitor vai votar, mas é como que não fosse, porque também nada determina.

É mais um daqueles «faz de conta», que toda a gente critica!… Em ambos os casos se nota desinteresse e alheamento.

É certo que, como o silêncio, também a abstenção e o «voto em branco» falam, mormente para as organizações internacionais.

Talvez, até digam mais do que se deseja e do que o sufrágio eleitoral denota.

O recomendado «voto em branco» tem ainda, embora o não pareça, uma atitude semelhante àquele voto dado, a medo e à força, em tempo de ditadura, e que faz as percentagens das votações atingir níveis na ordem dos noventa e tal por cento.

Quer num caso, quer noutro, são votos impostos e recomendados, que constituem um colectivo maciço – o primeiro de afirmação; o segundo de negação – a lembrar «carneiradas» antigas, pouco abonatórias do sufrágio eleitoral.

Por isso, como o voto é um direito e um dever que define a personalidade do cidadão, não me parece prudente e ajustada a recomendação saramaguiana.

Há, ainda, uma nova reflexão a ser feita, que tem a ver com o momento da proposta.

É que, como todos sabem, não vivemos num espaço temporal propício às ideias políticas de José Saramago que, como é do conhecimento geral, se encaminham para obediência cega aos dirigismos dos «comités» centrais.

Ora, este «voto em branco» para aí aponta e isso facilita, porque não passa de uma dissimulada procuração, passada às elites mandantes que nunca votam em branco.

Daí talvez a proposta pretenda visar fins diversos dos que surgem à primeira leitura do livro.

Para mim, quer o voto em branco, quer o abstencionismo, não são coisas que se recomendem.

Deixem raciocinar o povo que, em termos de lucidez, com a experiência que tem, não precisa fazer grandes ensaios!…




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