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A leitura, factor de fruição e de terapia

Há alguns dias, razões de ofício levaram-me mais uma vez à bela cidade de Santiago de Compostela – a terceira cidade de peregrinação do mundo depois de Roma e de Jerusalém -, uma das mais belas e antigas de Espanha, ornada de velhas ruas e bairros antigos, povoada com monumentos onde prepondera o barroco e o neo-clássico, o que lhe confere uma atmosfera nobre e solene; cheia de peregrinos devotos e do bulício dos cerca de 45 mil de estudantes da sua Universidade – também esta uma das mais antigas -, respirando a grandiosidade da sua catedral, que neste Ano Santo é centro nevrálgico da chegada de multidões, e da Praça de Obradoiro, onde está também instalada a Reitoria da Universidade (a vida universitária desenvolve-se em dois amplos “campi”, o Sul e o Norte) – que perfaz uma inusitada aliança entre tradição e modernidade.

N/D
20 Abr 2004

Passando alguns instantes numa livraria, para conhecer novidades editoriais, não resisti à compra de alguns livros, e entre eles, um que me aguçou o apetite, já pelo título, já por algumas passagens que o virar das páginas me concitou o interesse. O livro, da autoria duma filósofa espanhola, Mónica Cavallé, doutora em Filosofia e presidente da Associação Espanhola para a Prática e Aconselhamento Filosóficos, intitula-se “La filosofia, maestra de vida”, especialmente interessante do princípio ao fim.
Não é fácil resumir o que se passa nessas 265 páginas; se o tivesse de resumir, diria apenas: a “leitura” é preciosa terapia; mais: é uma excelente alternativa às terapias tradicionais; e mais ainda: a terapia filosófica é uma singular alternativa à psicanálise.

Indo mais longe: se o que preo-cupa algum mortal são questões de desajustamento às realidades que o circundam, talvez Descartes possa traçar vias de solução; lendo Espinosa, talvez se chegue à conclusão que alguém, uns séculos antes, pensou em problemas que se julgavam só nossos; se o que anima muitos dos humanos é o inconformismo perante problemas da vida, certamente alguns dos escritos de Nietzsche venham a constituir ajuda e apoio inestimável.

Como explica a autora, na introdução, o interesse da filosofia parece renascer para o grande público, quando ela foi relegada durante os últimos séculos para os claustros académicos; para isso, contribuiu sobremaneira o surgimento de uma forma de aplicação da filosofia como aconselhamento individual, dirigida a todos os sectores da sociedade, que, embora nova na sua nova modalidade, é muito antiga no seu espírito: inspira-se na actividade dos primeiros filósofos, retomando a intencionalidade profunda com que a filosofia surgiu: «ser a arte por excelência da vida». Assim, «o aconselhamento filosófico supõe um retorno às raízes socráticas da filosofia, embora adaptada a circunstância e contextos da contemporaneidade».

Na verdade, ao invés da psicanálise, não se centra no passado, inquirindo traumas ou fantasmas para solucionar problemas, mas percorre outras sendas, abrindo os olhos e despertando a consciência para processos que pare-ciam automáticos, liberando de interferências permanentes e contumazes.

Afinal, trata-se de recuperar essa dinâmica através do diálogo, partindo dessa base quase revolucionária: grande parte das dificuldades que atravessam as pessoas não são patologias mentais; são porventura ideias erradas sobre nós mesmos, são conflitos de valores, ou noções que nos limitam, que não devem tratar-se como enfermidades; não se trata, pois, de facultar um filósofo para cada situação complexa, porquanto a questão nada tem a ver com um novo tipo de receitas. O que é verdade e se torna manifesto é que os gregos, primeiramente, depois destes muitos outros, trouxeram muito de sageza, de verdadeira sabedoria, ao conhecimento do indivíduo e das situações que nos envolvem.

Especialmente dirigido às mulheres – a obra tem como subtítulo “Respostas às inquietudes da mulher de hoje” -, descobrem-se clareiras ocultas, porque a filosofia tem sido feita sobretudo por homens que se dissociaram dos valores femininos, com o esquecimento do concreto, do indivíduo, do diálogo, o que não acontecia com os gregos; todavia, a novidade é generalizável, porque muitas pessoas não sofrem propriamente patologias mas são habitadas mentalmente por preconceitos que as limitam e angustiam profundamente.

É conhecida a prática da terapia filosófica que há muito era exercida em países nórdicos e na Europa central, com os conhecidos consultórios de prática consultiva, iniciada há mais de duas décadas na Alemanha; o interesse do livro centra-se na sua implementação a oeste, sendo a autora uma das impulsoras do movimento em Espanha, ilustrando com linguagem simples e situações que foram relegados na história do pensamento, o que não ocorreu no Oriente; deste contexto, recolhe a mensagem: «O desejo por si mesmo não é incorrecto; é a própria vida, a urgência por crescer em conhecimento e experiência. O que é incorrecto são as escolhas que tu fazes. Imaginar que algumas coisas pequenas te farão felizes – comida, sexo, poder, fama – é enganar-se a si mesmo. Só algo tão vasto e profundo como “ser realmente” pode fazer-te feliz de modo duradouro».

São cerca de três centenas de páginas onde abundam casos práticos que ilustram como a leitura de livros não é somente fonte de instrução e de aprendizagem, apenas instrumento de comunicabilidade com aqueles que connosco convivem de perto ou de longe, de agora ou de há séculos, nem somente um dos únicos e precioso veículo de transmissão de conhecimento e de experiências entre gerações; é tudo isso, mas também factor de fruição e de sageza, eficaz meio de terapia, mostrando – o que está ao alcance de todos e não somente dos filósofos de profissão -, como a reflexão filosófica nos pode ajudar a fazer crescer em auto-estima e de abertura aos outros, afrontar o problema da solidão, afirmar a própria identidade e reconhecer a dos demais, em suma, encontrar sentido na vida e um lugar no mundo.




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