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Chover no molhado (33)

E lá vai o amor, caindo aqui, levantando-se acolá e empurrado de todos os lados

N/D
16 Abr 2004

O poder do amor manifesta-se na força que une as diferenças, sem contudo perder nelas a sua autonomia.

Afinal o que é o amor? Não sei responder. Ultrapassa-me. Mas, embora receoso e sem me perder na tecida visão caleidoscópia do amor, que me faz franzir os olhos e traz-me dores de cabeça, vou, em tacteamentos, desenhar a percepção que dele tenho, após a sua concretização, após a sua efectivação.

Parece-me, então, que, a partir da autoridade desta sua efectivação, o amor é esta força poderosa e dinâmica de união, de paz e de harmonia que pulula entre a pessoa e a realidade total.

Como observador, gostaria, agora, de acompanhar este amor, amor dinâmico e poderoso, na sua força, a calcorrear pelo caminho íngreme, escalvado, pedregoso e doloroso, rumo à sua crucificação, morte e ressurreição.

A bordejar o caminho fora, estica-se para o ver passar, em cordão bem emaçarocado, uma multidão de gente, imaturamente afectiva. E, porque assim o é, não conhece este amor de união, de paz e de harmonia, que, agora, por aqui vai a passar.

Cospem-lhe na cara impropérios. Atiram-lhe com infâmias e dichotes de fazer rir e corar. Vergasteiam-lhe as costas. Assobiam, no ar, as fortes chicotadas. E assim vai este amor, a reboque, por entre pontapés, pedradas e pauladas. Cai aqui! Levanta-se acolá! E assim, vaiado, lá vai o amor.

– Cuidado!, grita uma voz. Assim, morre-nos pelo caminho.

– Deixá-lo!, respondem, dos lados, outros. É um blasfemo! É um mentiroso! Não serve para nada! Não é dos nossos! Não o queremos!

Mas estes amores imaturos, em gritos ferozes e desumanos, não conhecem, nem querem conhecer o amor, que vai passando, calado, resignado e pacífico.

Crucificai-o!, grita a multidão.

E lá vai o amor, caindo aqui, levantando-se acolá e empurrado de todos os lados.

E como o amor, este amor, nada rejeita, cá vêm ao seu encontro, para o ajudar a levar a sua cruz ao calvário, os cireneus. Concretamente são para nós, nesta nossa vida de todos os dias, os artistas com a sua arte. São os cientistas. São os técnicos. São os filósofos com a sua verdade. É a justiça. É a moral com a sua transcendência. E é o recurso à oração com as suas preces dirigidas ao Divino.

Crucifica-o, grita a multidão. E assim aconteceu. E eis que se levantam, sem dó nem piedade, os ventos da discórdia. Rompe-se a união. Trovejam as maldições. Reluz, ao sol, o punhal da violência. E de cada lado do amor já crucificado – que tristeza! – de costas bem voltadas, desunidos, cavalgam à rédea solta, e cada um segundo os seus próprios critérios, a Emoção e o Pensamento. E a Razão fatalista e desumana – fria, rígida, tirana, insociável – espeta, despoticamente, os seus espinhos obsessivos e pessimistas, na cabeça do amor.

E como se comporta, para com o amor, o Sentimento? Nem mais nem menos: martela com toda a força, na carne deste corpo ensanguentado, os cravos dolorosos da cólera, do ódio, do desespero, da ansiedade, do pavor, do remorso, da humilhação, da troça, do desdém…

Que vidas tão atormentadas, quando dominadas por estes tiranos!

E agora, pergunto eu a mim mesmo, como vou eu, pessoa, superar tudo isto? Como vou eu, pessoa, libertar-me destes espinhos e destes cravos? E libertar-me para quê? É que esta minha libertação, por mim desejada, vai ressuscitar, outra vez em mim, este amor ferido, humilhado e morto. E a sua ressurreição eu a quero, pois é, para mim, a primavera da minha esperança. É, para mim, o grito alegre do meu optimismo. E juntos vão, agora, apressadamente desaguar no Oceano Imenso do Amor de Deus.

E tudo isto não passa de uma fracção do itinerário da nossa vida cá na terra.




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