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A propósito deste tempo pascal…

Na altura em que se redigem estas linhas, o mundo cristão vive, com a intensidade acostumada, os dias do chamado “Tríduo Pascal”, todos referentes aos acontecimentos da vida de Jesus Cristo que mais se relacionam com a vida do homem na terra.

N/D
13 Abr 2004

E eis um ponto fundamental que convém sublinhar. A «vida do homem na terra», como acabámos de escrever, é apenas um momento – o mais breve e passageiro – da realidade da nossa existência. Já São Paulo, numa das suas cartas, teve oportunidade de salientar, de forma veemente, que aqui «não temos morada permanente».
Esta observação, que constitui o ABC do sentido cristão da vida, é uma verdade que se vê constantemente escamoteada e maltratada por uma espécie de contaminação grosseira do capitalismo reinante, com todo o seu cortejo de promessas efémeras. Ele quer construir de novo um «paraíso terreal», que terminou com o pecado de Adão e Eva, prometendo para o presente o que não pode ser senão caduco como as folhas que morrem no Outono: o bem-estar a todo o custo, a riqueza material como cume da felicidade e a “qualidade de vida” resultante duma concepção que tem como alicerce de base a ideia falaz de que onde há dor e sofrimento não pode existir qualquer tipo de satisfação.

Quando olhamos para a Cruz de Cristo, tudo isto cai de chofre, porque o terrível espectáculo da Sua Paixão e Morte, que um filme recente tanto tem evidenciado, fizeram do madeiro da dor e do sofrimento o meio que abriu ao homem de todos os tempos as portas duma eternidade plenamente ditosa, onde tudo o que possamos supor sobre a possibilidade de contentamento se esboroa.

Na verdade, nenhum de nós está em condições de conceber a capacidade de Deus, que além de justo é sumamente misericordioso, para tornar feliz o homem, sua criatura predilecta. A nossa imaginação não pode competir com a divina, o nosso amor é um espelho baço e pobre da caridade de Quem nos criou, o nosso poder nada é perante a omnipotência do Senhor de todas as coisas e o nosso saber uma pálida centelha em relação com a omniscência de Quem tudo compreende, não se fixa nas aparências enganadoras e penetra no escaninho mais recôndito do coração humano, onde se forjam todas as nossas intenções e desígnios, por mais íntimos e sigilosos que sejam.

Eis a razão que levou também o Apóstolo Paulo a observar que todos os sofrimentos desta vida não são comparáveis com a glória que Deus reservou para os que Lhe são fiéis nesta terra.

Não nos iludamos: foi para a eternidade concedida pela nossa condição imortal – dom de Deus e não conquista ou ambição humana – que Cristo jogou toda a Sua honra e toda a Sua vida humana no monte Calvário, ao lado de Jerusalém, num momento histórico da humanidade, que tinha Roma e o seu poder avassalador como centro de todas as atenções.

Por isso, confundir perspectivas de felicidade consumistas e capitalistas com a da vida para além da morte terrena prometida por Cristo em nome do Seu Pai Deus, tão em voga nos tempos que correm, é trocar o essencial pelo acidental, o aliciante pelo verdadeiro, o ilusório pelo real.

Quando os cristãos se deixam seduzir por esta falácia, a caridade esmaece e, com a sua deterioração, surge, como que por encanto, todo o cortejo tradicional de sabor amargo que a “qualidade de vida” mundana fornece: egoísmo, falta de espírito de serviço, sensualidade, temor patológico da morte, busca da riqueza e do bem-estar como um fim prioritário e imprescindível, esquecimento ou subalternização do dever de amar a Deus sobre todas as coisas e tibieza progressiva. Os seus quadros mentais, ao fim e ao cabo, deixam de ser cristãos, para se tornarem consumistas e capitalistas.

Contou-me um amigo meu, emigrado em país distante, que tendo passado pela sua cidade natal, quis visitar o local onde repousam os restos mortais de seus pais. Não ia lá há alguns anos. O ponto de referência que guardava na memória, num grande cemitério onde todas as edificações funerárias são praticamente iguais, era um jazigo mais opulento e original. Custou-lhe muito a descobri-lo, porque entretanto grandes obras se efectuaram nesse lugar.

Alegrou-se ao descortiná-lo a uma certa distância, sabendo que a campa que procurava se situava muito perto. Foi-se aproximando e achou-se a pensar, nas suas historietas de infância, do que ouvia contar sobre o poder económico e social dessa família rica, que, com devoção e bom gosto, havia edificado tal monumento para o descanso digno dos seus membros e da sua descendência. À medida que se lhe achegava, apercebeu-se de qualquer coisa estranha e desagradável, que não captou imediatamente. Mas o que temia verificou-se. A porta principal do jazigo, meia partida e semi-aberta; os vitrais de duas janelas esguias, roubados. E, pendurado duma saliência rugosa da parede, um letreiro: «Abandonado – À venda».

Cristo não morreu para que os nossos restos mortais fossem, depois duma glória passageira num cemitério bem arranjado, atirados para uma vala comum. Morreu, sim, para que a nossa vida se tornasse perfeitamente feliz, para sempre. É a isso que, em linguagem vulgar, chamamos Céu.




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