Fotografia:
Em vésperas de Sexta-feira Santa…

Que se fez então de tais mausoleus e de tais passos expiatórios? Não eram os daqueles que se queriam esconder e que tinham vergonha em face do céu mais puro? (Nietzsche)

N/D
8 Abr 2004

Na minha memória, a imagem ainda viva da igreja que visitei há uns anos, em Viersen, encimada com a de uma cruz sobre o altar-mor, feita de ferros e sucata de automóveis, resíduos de fábricas e limalhas, num tempo de desenvolvimento industrial desenfreado.
Essa figura horripilante de ferros retorcidos, tubos de escape e folhas amassadas de chaparia e automóveis amolgados, em forma de Cruz, exprimem o sofrimento do homem, no engodo e frenesim do trabalho para conseguir o pão. Matéria embelezada, que, por vezes, desfigura o homem e o poluiu…

Neste metal amolgado, símbolo do homem triturado e trucidado, está a imagem de Cristo crucificado, vencendo a morte e comparsa no sofrimento humano, num halo de Ressurreição. Esta metáfora ou alegoria polissémica, expressa em vozes dissonantes e em contraponto de luzes – na intenção do arquitecto – pretendeu ser o simbolo iconográfico, vivo e dinâmico, da pujança da vida, do trabalho e da força bruta concitada pela indústria, que na voragem de bem-estar, esmagou o homem, transformou a matéria e até o imaterial, o triturou e o faz um Cristo dorido, despedaçado ou partido, no meio do conforto e do hedonismo, hoje à procura de um oásis…

Talvez em tempo de Semana Santa, quando muitos viram impressionados o filme da Paixão de Cristo, de Mel Gibson, que levantou tanta controvérsia e levou aos comentários mais contraditórios, seja importante associar o que a profusão e barroco lancinante de imagens nos fornece. Sem escândalos de pios – porque este espectáculo vampiresco e sensacionalista presenciliamo-lo todos os dias -, através do terrrorismo e do esmagar da dignidade do homem, mesmo nos concidadãos de Cristo.

Tudo isto muito mais profundo, traduz o abismo e a enormidade do pecado, ou desorientação do homem, vampiro e consumidor de horror selvagem, num novo holocausto espiritual e desumano de hoje, nada menor que as torreiras de Hitler, ou gulags, holocaustos de Goldmann, genocídios de Vietnam, de Rwanda ou de Port Pot, de Nova Iorque ou Madrid. É a sexta-feira santa da Humanidade, cujos agentes não são apenas os Judeus, mas todos nós, muitos imbuidos no ódio, ou sarjados no coração pelo horripilante, fel e medos que trespassam os coracões.

Num tempo ainda, em que na Alemanha se fala da venda de igrejas, transformação de conventos e seminários em hoteis, ou oasis espirituais para receber autênticas sucatas humanas, desfiguradas pelo estresse do dia-a-dia, com todas as condições materiais, medicinais e espirituais de repouso, silêncio, lazer, ginástica, massagens, piscinas, fitness, weleness e sauna… parece brotar uma força escondida, a ressurgir por entre corpos esmagados, deformados, ainda à procura da solicitude de jovens sacerdotes ou velhas religiosas…

Onde nos levou a ânsia de bem estar, o engodo de trabalho, energia, vitalidade e exploração de todas as forças, mesmo as mais brutas e instintivas? Ferralha e ossos retorcidos, veículos avariados, a substituir ou recauchutar peças e engrenagens, escombros amolgados, résteas de esperança e verdura, em membros calcinados, cuja cosmética concitou uma artrose, sinistrose, esquezofrenia, e mesmo secura espiritual? Longe das águas e verduras, os nervos foram carcomidos, ficando cadáveres à espera de um novo sopro regenerador ou de renascimento, em oásis de frescura, verdadeiros lazaretos, mas de bem-estar e conforto moderno.

Será o novo azorrague investido contra a humanidade? A peça enferrujada, que sem espírito, perdeu o vigor?A máquina construida para facilitar e gozar a vida , que se tornou, senão objecto de destruição do homem, na sua maior perfídea? Para que serve produzir, se com o desemprego, que provocou, não há dinheiro nem chega para comprar?

E vivemos em sexta-feira santa!…..

Esta já começou nos ricos… E nós, que ainda vamos a caminho, como alimentamos as nossas esperanças? Como dessedentamos a nossa sede? Como interpretamos a nossa cruz? Ou vivemos só de xutos e pontapés?!

Cristo, lá no alto ou bem perto de nós, é a efígie do homem de hoje: vergado, trespassado, amargurado, cheio de sede…

– de Homens sem violência, que choram junto do seu túmulo, mas que o entendam;

– de Padres que não sejam os sumos sacerdotes, como casta de escribas ou fariseus, agarrados ao túmulo de Cristo, a fazer exéquias, ou a carpir como tresloucados, mas homens de Esperança, que saibam arrancar de velhos odres, vinhos novos; das cinzas, a ressurreição de ossos, ao encontro de Cristo, mais preocupados com o que vão ganhar do que aquilo que vão perder;

– de Mulheres de Jerusalém, que não choram apenas os desmaios dos seus filhos, mas são capazes de, com a sua ternura, suavizar a cruz da humanidade, transmitindo sentimentos de mansidão e bondade aos outros, em vez de rivalizarem e se escravizarem como os homens;

– de jovens enamorados de Ideal, que desafiam os poderes de hoje, denunciando um sepulcro colectivo, onde os políticos aparecem em cortejo fúnebre, como agitadores, abutres, parasitas ou espantalhos de quimeras e desilusões…

– de Vozes de profetas que se confrangem com medo da morte, mas esquecem que ela ainda não será o termo da vida. Que não construam cabanas, a que chamam igrejas, como mausoleus embalsamados…

– De verdades como punhos, ainda que objecto de condenação humana, sem os grilhões da eterna, porque são prenúncio de Ressurreição… Porque só esta permite aceitar os riscos da história dos homens em mundo tão controverso e paradoxal: falta a fé, ficará apenas da cruz como instrumento de execução, ou cadafalso do homem.




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