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Baía e Scolari

1 Uma obstinação ainda corrigível Errar? Qualquer um pode errar! Porém, quando o erro é manifesto, há aqueles que reconhecem que erraram; e corrigem o erro. E aqueles outros que, apesar de toda a gente (incluindo eles próprios) já terem percebido que eles erraram, ainda assim não querem “dar o braço a torcer”.

N/D
7 Abr 2004

Normalmente isso acontece por defeitos de carácter (soberba, desonestidade, teimosia) ou porque a sua auto-estima é tão baixa que pensam que se naquela situação admitiram o erro, a sua imagem pública fica “per omnia secula” prejudicada. Normalmente enganam-se, pois o que mais sobressai nestas circunstâncias é a sua falta de honestidade. E ficam sozinhos negando as evidências.

Com certeza que não é por defeitos de carácter (mas apenas por precipitação e falta de conhecimento) que o consagrado treinador Luís Filipe Scolari não seleccionou Vítor Baía para o Euro 2004. Mesmo que nas duas últimas épocas o montijense Ricardo Pereira (do Boavista e Sporting) tivesse sido provavelmente o melhor guarda-redes português, na época corrente Vítor Baía parece estar em melhor forma que ele.

Ricardo tem 28 anos, Baía 35. Que importância tem, para um guarda-redes com a classe e a capacidade de trabalho de Vítor Baía, o facto de ter 35 anos? Pouca. Já nem será preciso lembrar o caso de Dino Zoff, que aos 42 anos era o titular da selecção da Itália.

Basta tão só recordar a longevidade do belga Preud’homme, do alemão Schumacher, do dinamarquês do Sporting Peter Schmeichel (n. 1963), do russo Yashin, do inglês Banks, do húngaro Meszaros, do romeno Stelea (ainda hoje, aos 37 anos, titular do Salamanca) ou do espanhol Cañizares (idem, no Valência, com 35 anos). Entre muitos outros.

Eu nunca fui um incondicional de Baía. De início, há anos atrás, achava que era um guarda-redes seguro mas pouco brilhante, que não aparentava ter o gosto por uma defesa espectacular, por um voo cheio de classe, por uma saída corajosa. E curiosamente nessa altura era o titular da selecção, à custa de outros de quase igual mérito, entre os quais esse fantástico caxineiro que era Alfredo do Boavista.

Então, Baía transferiu-se do Porto para o Barcelona por uma série de anos. Mas rapidamente foi vítima da antipatia de Van Gaal, um treinador holandês de aspecto bovino, que preteriu o consagrado Baía em favor do seu conterrâneo Hesp (aliás quatro anos mais velho…). Salvo do mofo da suplência no plantel dos catalães pela (desta vez) meritória iniciativa de Pinto da Costa, o goleiro gaiense reapareceu rejuvenescido, valente, cheio de reflexos, senhor de si, capacíssimo. Às vezes resolve até as situações de perigo melhor do que fazia há dez anos…

Porém, vá-se lá saber porquê, Scolari não o escolhe. E assim antagoniza, sem necessidade, boa parte dos numerosos adeptos portistas. E não só, pois há muita boa gente que não gosta do FCP mas que idolatra Baía. E assim dividida, a “torcida” portuguesa vai ficar à espera da primeira escorregadela para acusar Scolari de ganhar uma fortuna mas apesar disso não ter sequer seleccionado os melhores. De dar portanto razão àquele trocadilho humorístico que apareceu em 2003 (Génova) num cartaz dos adeptos italianos no amigável Itália-Portugal (1-0), e que dizia: «un Scolari contro 11 maestri» (um aluno contra 11 professores)…

2. Um fluminense pede a um gaúcho

O autor desta “apassionata epistola calcistica” descende de dois trisavós luso–brasileiros. Um viveu (e enriqueceu) em Salvador da Bahia. O outro, meu trisavô José Joaquim Godinho (1836-1885), foi um membro muito proeminente da colónia portuguesa do Rio, agraciado com comendas e títulos quer pelo Brasil, quer sobretudo pelo rei português, à época D. Luís I. E ele sente-se (sinto-me…) sempre, por causa deste seu (meu) trisavô, um pouco carioca. Ao ponto de o Vasco da Gama ser um dos clubes de que mais gosto no mundo inteiro.

Sei que “seu” Scolari é rio-grandense. Por uma coincidência fantástica é também passo-fundense, exactamente da mesma cidade natal desse bardo do Brasil que foi meu idolatrado Teixeirinha (nascido na mesma cidade de Passo Fundo, nas cabeceiras do rio Jacuí). E eu, que venero Beethoven, Vivaldi e Handel, me orgulho também de possuir 15 cassetes de seu conterrâneo Teixeirinha.

Este último fez, uma vez, uma comovente canção a um palhaço do circo, de quem era, suponho, bastante amigo. Imortalizou assim o acidente de viação que acabava de vitimar seu modesto camarada. Não teve vergonha de dizer que era amigo de um palhaço de circo. A mim também ninguém me pediu para interceder por Baía. Mas eu acho que é justo, que merece.

E se minha condição de parcialmente carioca não atestar brasilianidade suficiente para o pedido, saiba “seu” Filipe Scolari que também tive um tio-trisavô rio-grandense. Conforme contei uma vez aqui neste jornal em 22-03-2003 (no artigo “Jaguarão por um açafate de ouro”) houve no início do século XX um tio de minha bisavó Joaquina (de Travanca da Feira) que viveu e foi dono de muitas casas naquela cidade de Jaguarão, fronteiriça com o Uruguai. Saudade, romantismo e honra me ligam também pois ao povo gaúcho. E aqui vai a minha homenagem às tropas de Farrapos. E glória ao Estado das coxilhas “sob um céu de anil”, ao minuano, a Porto Alegre, à Lagoa dos Patos, à praia de Torres, a Iolanda Pereira (primeira Miss Universo), a Garrastazu, a Getúlio Vargas, a Bento Gonçalves, a Garibaldi.

E saudações a Scolari, essa avantajada mas elegantíssima figura de italo-brasileiro, com uma fronte romana e um penetrante olhar de ostrogodo, de lombardo, de catarinense. Campeão do mundo por mérito próprio, pode estar certo de que contará entre os portugueses com muitos amigos sinceros.
Desde que não ofenda parte deles com “escalamentos” de miúdos para ocupar o lugar de craques.

Em Portugal, Baía tem nome feito e não precisa dos favores de Scolari. Scolari também tem nome feito, mas decerto não o conservará se desprezar alguém como Baía. Como no firmamento, as estrelas não se ofuscam entre si. Brilham em conjunto.

Mesmo que opte por Ricardo, deve chamar Baía.




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