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A política para os velhos

Eu, como velho e reformado, tenho medo do futuro. Estou como todos aqueles que se encontram na minha situação, isto é, vivo exclusivamente da pensão de reforma. Aceitei sem grandes custos, diga-se de passagem, estes dois anos sem aumentos porque sou, no mundo de miséria dos reformados, um dos remediados.

N/D
5 Abr 2004

Penso que o governo, na contingência económica e financeira que teve de resolver – herança do anterior governo – nada de melhor poderia ter feito. Sempre disse, aquando das últimas eleições legislativas que levaram ao governo a actual coligação, que o ministério mais importante na orgânica de qualquer governo era (e é) o Ministério das Finanças.
Por isso gosto da actual responsável pelo que ela tem de coerente na administração das finanças públicas. Gosto dela por interesse, não do presente, mas pela garantia e sossego de futuro. Tenho medo que este esforço e este rigor orçamentais se venham a perder em regabofes sociais. Este temor nada tem a ver com a ideologia, muito menos com o partidarismo.

Todos nós, reformados e pensionistas, sabemos que, de momento, as nossas pensões de reforma estão garantidas e se não perdem na voragem dos créditos excessivos; sabemos que na contenção e solidificação orçamentais reside a garantia do Fundo de Pensões; percebemos que, enquanto à frente das finanças estiver “uma boa dona de casa” que tenha como objectivo a disciplina das finanças públicas, as nossas pensões de reforma não correrão perigo de não serem pagas a tempo e a horas.

Isto é por demais importante para todos nós. Os velhos já não embarcam em aventuras, nem se convencem com demagogias, isto é, promessas falsas. Sabem que o bacalhau a pataco tem sempre um preço muito salgado. Por muito estranho que pareça os velhos temem mais o futuro do que os novos, não porque tenham no seu horizonte grandes realizações ou projectos comprometidos, mas porque já não possuem em si forças suficientes para começar de novo.

O espectro de ficarem dependentes dos filhos assusta-os. É como se depois de nadarem para longe, em vez de terem um barco cómodo para o regresso, os mandassem voltar a nado. É voz corrente – vox populi – desejar a mudança política, mas esta mudança traz e transporta do passado recente receios justificados de desmandos, desgovernos e esbanjamentos.

Ninguém ama os rigores de Manuela Ferreira Leite – ela pensa mais nos números do que nas pessoas – mas, por igual, todos receiam o regresso da gestão mãos largas, por muito agradáveis que sejam no imediatismo. Não há por onde escolher e muito por onde temer, eis o drama! Este sentimento de perda entra em nós como areia fina e lá fica moendo a alma. Perder o pouco que se possui é perder muito, porque é perder tudo. O pouco resolve pouco, é verdade, mas resolve mais do que o nada. Justifica-se o medo dos velhos? Mais que se justifica.

Por isso vai ser preciso, nos próximos programas eleitorais, olhar com especial sublinhado para as políticas públicas (public policy) para os velhos, se as forças políticas em disputa quiserem ter sucesso. Não tenham medo de marcar na agenda, em paridade com as outras políticas, a política para esta faixa etária.

É que nós, os velhos, já somos muitos, cada vez seremos mais, cada vez sabemos mais o peso que temos na escolha das políticas que a nós dizem respeito; não nos podem levar a mal por estarmos atentos àquilo que mais nos convém. Esquecer-nos será um erro muito grave.




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