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Outro ponto de vista…

O lançamento do romance de Saramago, “Ensaio sobre a lucidez”, mereceu no âmbito da sua apresentação um conjunto de iniciativas em que o próprio autor se permitiu dar voz a alguns dos aspectos que romanceou.

N/D
2 Abr 2004

Conhecida figura do meio político, com responsabilidades políticas relevantes, não só como destacado militante comunista, mas, mesmo, com acção prática no âmbito do próprio partido de que faz parte, permitiu-se discorrer numa temática que em nome de alguma honestidade intelectual deveria ter-se abstido de o fazer.
Ao defender que o sistema democrático está caduco, que não responde aos anseios das pessoas, defende em nome de uma lucidez, a dele, que a forma de se combater o actual sistema, registe-se, democrático, é manifestar o seu voto de forma “lúcida”, em branco.

Em nome da “lucidez”, repito, dele, é Saramago um dos candidatos comunistas ao Parlamento Europeu.

De forma brilhante, o escritor responde que não existe problema de maior neste absurdo lógico, apenas vislumbrando, o próprio, uma pequena contradição, formal.

A escolha, a dele, foi por razões de fidelidade. A quê?

Acho que estamos perante um autêntico logro.

O personagem em causa, que em tempos, não muito distantes, foi responsável directo pelo saneamento de jornalistas no “Diário de Notícias”, que por razões lúcidas pensavam de forma diversa da sua, vem pregar-nos do alto da sua cátedra verdades, suas, a exemplo da defesa que fez e faz do viver democrático em Cuba, ou noutros momentos no país dos Soviéticos.

Entendo que não é intelectualmente sério este procedimento.

Não conheço melhor forma de viver comunitariamente do que aquela que nos propõe a vivência democrática.

Se os Partidos não respondem aos anseios das pessoas, temos a possibilidade de apresentar novas propostas.

Não precisamos de nos demitir.

Não nos vamos demitir.

Não precisamos de transmitir amargura, porque nós acreditamos na natureza espiritual do homem.

O nosso mundo não se esgota numa matéria qualquer, nós sentimos a responsabilidade de tentar fazer do mundo um espaço melhor.

Percebemos a amargura de quem sempre na vida teve uma atitude totalitária, autoritária e dona de uma verdade a que só poucos, a nomenclatura, tinham acesso.

Hoje sente-se e proclama-se um homem só, triste, porque a História afinal deu-nos razão.

Em vez de “Ensaio sobre a lucidez” deveria antes o seu romance ser considerado um “Tratado de insensatez”.




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