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“Ensaio sobre a coerência”

A crise do regime democrático e o desencanto generalizado que se instalou na sociedade portuguesa -relativamente ao actual sistema político-partidário serviram de mote ao mais recente romance de José Saramago, “Ensaio sobre a Lucidez”.

N/D
1 Abr 2004

Em entrevistas concedidas a diversos orgãos de comunicação social e em várias sessões de apresentação do novo livro, o escritor tem defendido o voto em branco como a grande arma anti-sistema – “bomba que pode explodir a qualquer momento”, como expressivamente lhe chamou – e incitado os seus leitores e as pessoas em geral ao seu uso em próximas eleições, exprimindo um enorme desejo de que a abstenção se transformasse em votação in alvis. E chegou até a confessar que, apesar de nunca ter votado em branco, começava agora “a pensar nisso”, pois, afinal, tinha de ser coerente com o que escrevia.

Sendo público que José Saramago vai ser de novo candidato pela CDU às eleições europeias (embora em lugar não elegível) e que a respectiva lista vai ser apresentada à imprensa no próximo mês, alguns jornalistas confrontaram-no com a evidente contradição entre aquilo que escreve e diz no romance e o que faz.

Não se mostrando nada agastado com a evidente contradição, explicou que esta era apenas formal, pois que a presença do nome dele na lista era simplesmente a expressão da sua fidelidade, a exemplo do que sucedera em anteriores eleições.

Como para bom entendedor meia palavra basta, presume-se que a sua proclamada coerência prática sirva para o transformar num autêntico “agente infiltrado” no sistema partidário para mais eficazmente o fazer implodir!…

Convenhamos que a ideia é genial. E, sobretudo, de uma extrema lucidez. Aliás, estou mesmo em crer que José Saramago tem já em mente o título do próximo romance com que, certamente, irá completar uma provável trilogia: “Ensaio sobre a Coerência”.

Perante as constantes contradições dos políticos – que hoje dizem uma coisa, amanhã afirmam outra, para logo, de seguida, procederem de forma diversa ou até contrária das posições anteriormente assumidas -, julgo que esta obra, para já ainda no segredo do seu fértil pensamento, será de uma grande oportunidade e utilidade e fechará, com chave de ouro, o ciclo dos seus ficcionados ensaios.

Atente-se, por exemplo, na atitude do Governo perante a magna questão da descentralização que ontem teve o seu dia zero. Depois de se ter afirmado campeão da desconcentração e da descentralização e de, com extraordinário voluntarismo, prosseguir uma “imparável” reforma territorial que levou já à institucionalização de uma vintena de novas entidades supra-municipais (entre Grandes Áreas Metropolitanas, Comunidades Urbanas e Comunidades Intermunicipais), esvaziou autenticamente de competências as direcções regionais de Agricultura, centralizando as áreas da floresta, sanidade animal e fiscalização.

Conforme recentemente explicou o Senhor Secretário de Estado da Agricultura e Desenvolvimento, o Ministério da tutela pretende a “verticalização” daquelas áreas, concentrando-as em departamentos sedeados em Lisboa, nas Direcções-Gerais de Florestas e Veterinária e nas direcções dos fundidos IFADAP e INGA.

Com esta nova orgânica que, no caso das florestas, se traduzirá na criação de três novas circunscrições florestais (Norte, Centro e Sul), às direcções regionais de Agricultura restará a função de apoio técnico ao agricultor que, na prática, as transforma num mero balcão para prestação de tarefas burocráticas ou de recepção das queixas dos agricultores.

Ainda a título de exemplo, tenha-se presente a também recente decisão governamental, ontem consumada, de encerrar a Delegação Distrital de Braga (como, aliás, sucedeu com muitas outras delegações distritais do país) da Inspecção-Geral das Actividades Económicas para centralizar no Porto os respectivos serviços.

Se no “Ensaio sobre a Lucidez” Saramago prescreve a “bomba” do voto em branco, quero crer que, no futuro “Ensaio sobre a Coerência”, a bomba terá de ser outra, nem que, para isso, tenhamos de ser nós portugueses, a, interactivamente, sugerir ao ilustre escritor a vassourada democrática. E esta “arma” tanto poderá ser utilizada sob a forma de voto em partidos alternativos, como sob a da criação de novas forças políticas ou de um uivo – mas absolutamente gigantesco e arrasador – como o que, no início do livro agora publicado, o Nobel da Literatura pôs na expressão de um cão.

Trinta anos após o 25 de Abril, é tempo de descobrirmos as virtualidades democráticas de uma boa “vassourada” no lombo de quem, com demagogia e populismo, persista em enganar o povo.




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