Fotografia:
A Paixão de Cristo

Fui ver o filme A Paixão de Cristo. Não posso dizer que gostei do que vi – houve momentos em que chorei – mas fez-me bem.

N/D
1 Abr 2004

É realmente duro e chocante. Violento. Muito violento. Mas vale a pena vê-lo para se ficar com uma ideia aproximada do que foi, na verdade, o sofrimento redentor de Jesus. Uma coisa é ler nos Evangelhos que Cristo foi flagelado, que Cristo foi coroado de espinhos, que Cristo foi insultado e escarnecido, que Cristo foi obrigado a levar a cruz para ser crucificado, e outra é ver, como o Cinema mostra, um homem – que no caso de Cristo era o Filho de Deus – ser horrivelmente torturado, a tudo sofrer por amor e a morrer perdoando.

É violento o filme, mas é bom que tomemos consciência da brutalidade de que seres humanos são capazes. Infelizmente. A Paixão de Cristo foi um capítulo dessa brutalidade. Recordo outros: o que se passou no gueto de Varsóvia, o que se passou nos campos de concentração nazis de Dachau e de Auschwitz, o que se passou nos Gulag da ex-União Soviética, o que se passou com a imposição do colectivismo na era estalinista, o que se tem passado nas diversas guerras, o que se tem passado nas várias perseguições pelos mais diversos motivos.

É violento o filme como violentas têm sido as várias formas de martírio a que, por amor de Cristo, os neros e dioclecianos de todos os tempos têm sujeitado muitos cristãos. É violento o filme como violentos foram o 11 de Setembro em Nova Iorque, o 11 de Março em Madrid, os diversos actos terroristas. Vamos esconder essa violência e criar a ilusão de que vivemos num mar de rosas e de que os homens, no seu relacionamento uns com os outros, só sabem dar abraços e beijinhos? Não é preciso tomarmos consciência da violência dos diversos actos violentos para que nos convençamos de que é preciso acabar com semelhante barbárie?

O filme de Mel Gibson vem mostrar aos mais cépticos a historicidade de Cristo, o sentido redentor do seu sofrimento, a verdade do amor de Deus para com a Humanidade.

A quem quiser entender toda a mensagem do filme recomendo que, antes, leia a Paixão de Cristo, como a relatam os diversos evangelistas. Para melhor compreender o espírito com que essa dor foi suportada e aquela cruz foi abraçada. Para melhor compreender as alusões à Santíssima Eucaristia, ao mandamento novo do Amor, à condição de servo do verdadeiro discípulo de Cristo. Para melhor entender a presença insistente, a dada altura do filme, da mulher de Pôncio Pilatos, Cláudia Prócula, e a forma como Maria e João seguem o desenrolar dos acontecimentos.

Principia o filme com a agonia de Jesus no Getsêmani e termina com uma alusão ao Ressuscitado. Por mim, gostava de ter visto representado de forma mais explícita o fenómeno da Ressurreição. É que o mistério pascal de Cristo, que neste tempo litúrgico somos particularmente chamados a recordar e a viver, não se limita à paixão e morte mas culmina com a ressurreição. Ele foi humilhado, sofreu e morreu, para ressuscitar impassível e glorioso.

Fazem-se, em diversos locais, via-sacras ao vivo. O filme de Mel Gibson é a mais realista e a mais chocante das via-sacras. Que ele contribua para nos consciencializar melhor do que é a mensagem do Calvário: que a violência, a vingança e o ódio não são caminho; que as relações entre os homens devem ser norteadas pela tolerância, pela compreensão, pelo respeito da diferença, pelo amor, pelo perdão.




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