Fotografia:
Nuno de Montemor

Hoje vou falar duma personalidade que, a meu ver, anda injustamente esquecida, nos meios culturais do país.

N/D
31 Mar 2004

Os compêndios de Literatura Portuguesa não falam dele; as livrarias não lhe apresentam os trabalhos nas vitrines; os colóquios literários olvidam o estudo da mensagem que pretendeu transmitir e a valiosa obra que publicou foi lançada no «gueto» do esquecimento.

Tenho a percepção que muitos dos meus leitores, sobretudo os mais jovens, jamais ouviram falar deste ilustre escritor.

Contudo, nos meus tempos de estudante, os seus livros andavam de mão em mão e eram autenticamente devorados.

Trata-se do escritor Nuno de Montemor, pseudónimo de Joaquim Augusto Álvares de Almeida.
Dada a reconhecida iliteracia popular, não admira o esquecimento devotado pelo homem comum. Já o mesmo se não poderá dizer do homem ilustrado.

Sucede que, aliada à iliteracia popular, mais afeita a romances de cordel do que a obras de mérito literário, temos a circunstância desta ilustre personalidade ser sacerdote.

Infelizmente, esta circunstância se, em alguns casos, favorece, noutros, prejudica a pessoa visada.
O escritor Nuno de Montemor nasceu em terras agrestes do interior. Mais propriamente na freguesia de Quadrazais, do concelho de Sabugal.

Contudo, nem a dureza do granito lhe embotou o espírito criativo, nem a rudeza do monte lhe afectou a sensibilidade artística.

Pelo contrário.

A alvura jacente da neve nos píncaros montesinos, bem como a pureza da água cristalina que, do alto da serra, descia por córregos e penhascos até à suavidade da planície, aguçaram-lhe de tal forma a imaginação e aperfeiçoaram-lhe de tal maneira o engenho e a arte que foi, quanto a mim, um grande vulto da nossa recente literatura.

Nuno de Montemor tem uma obra extraordinária.

Escreveu cerca de três dezenas de obras, entre as quais me permito destacar “A maior glória”, “O irmão de Luzia”, “A paixão de uma religiosa”, “A hora vermelha”, etc. Algumas destas obras foram traduzidas para outras línguas.

Partindo sempre do meio envolvente e sem nunca esquecer a formação humanista recebida, Nuno de Montemor escreveu dezenas de romances, que podem ser considerados como o que de melhor se fez, ultimamente, na literatura portuguesa.

A temática regional que escolheu, aliada à maravilhosa maneira de escrever, onde o diálogo tem prioridade sobre o popularmente chamado «enredo», faz com que os seus romances se leiam com interesse e sem enfado.

Escritor de frase curta e sintaxe simples, manuseia com facilidade as diversas figuras literárias, no adorno e enfeite da frase; para melhor se exprimir e se fazer compreender, utiliza abundantemente o vocábulo e as expressões regionais.

Para tema das suas obras, escolheu problemas sociais de índole popular, como a dureza do trabalho na pedreira; a solidão monótona da aldeia onde nada acontece; o tradicional abandono das povoações, condenadas à migração e sem as mínimas condições de viver; o exemplo estimulante de pessoas, amadas de Deus e estimadas pelo povo; o resguardo popular do futuro, à sombra credora do campanário, etc., etc.

O que mais admiro em Nuno de Montemor é a sua entrega à problemática social do meio, o uso que faz da estrutura linguística local para exprimir os sentimentos próprios e alheios e a utilização dos costumes locais para suporte e conteúdo da sua magnífica obra.

É pena que um escritor com esta envergadura intelectual passe quase despercebido nos meios culturais portugueses.

A Universidade Católica Portuguesa prestaria um bom serviço à pátria e à Igreja, se divulgasse novamente as obras deste preclaro romancista português e, através de Colóquios e Semanas Culturais, o desse a conhecer ao grande público.




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