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Crianças israelo-árabes: as grandes vítimas do terrorismo entre os pais

O mosaico humano da Palestina actual é dividido sobretudo entre hebreus e árabes palestinianos. Dos primeiros, segundo os dados de 2002, vivem em Israel 5,4 milhões, o que constitui quase 80 por cento da população; no mesmo país moram 1,3 milhões de árabes, dos quais cerca de 170.000 são cristãos. No território sob a égide da Autoridade Palestiniana há cerca de 3,4 milhões de árabes.

N/D
30 Mar 2004

Como é sabido, não tem sido fácil o entendimento entre estes dois povos, cenário constante de muitos atentados de ambas as partes. O terrorismo, em golpes e contra-golpes, não se dá por vencido. E a situação agravou-se de há três anos e meio a esta parte, desde que em 2000 se iniciou a Intifada que ainda perdura, com o cortejo trágico de ocorrências mortíferas que têm chacinado muitas vítimas dos dois lados.
Os números falam por si. Morreram 2.755 palestinianos e 931 israelitas.

Recentes acções punitivas do exército judaico fazem temer um recrudescimento impetuoso das mortandades. Condenado pela maior parte da comunidade internacional, o governo de Ariel Sharon certamente que advoga como direito de defesa, ou até de sobrevivência, a necessidade de castigar quem comete actos de terrorismo indesculpável.

Mas o mesmo podem dizer as autoridades palestinianas, quando o exército israelita responde ou actua “dente por dente e olho por olho”, com muito mais meios bélicos, causando baixas numerosas entre a população civil. É o diálogo da violência que impera, parecendo os ouvidos surdos a qualquer tentativa de paz, uma vez que as duas partes até agora, com responsabilidades recíprocas, só entendem a linguagem da força.

Como sempre, quem paga incompreensivelmente o desentendimento dos adultos são as crianças.

Inermes, morrem à custa dos ódios instalados, sem culpa, sem possibilidade de se defenderem e sem poderem fazer ouvir a sua voz. O espectáculo mórbido e sanguinolento das que são dilaceradas pelos tiros e pelas bombas apresenta-se-nos como um grito de escândalo horroroso e imperdoável.

E o que dizer dos sentimentos de desconfiança, ou de receio hiper-sensível, que se instala no coração de cada uma, ao verem como se pode morrer com tanta facilidade, porque os mais velhos, em lugar do amor lhes instilam o ódio; da concórdia, a lei das armas; da lealdade de relações, as mortes à bomba brutal e inesperada; da paz nas ruas, os efeitos de um “rocket” traiçoeiro ou de um tiro sibilino?

Não é verdade que se as crianças israelo-palestinianas pudessem conviver livremente numa escola, lado a lado, nas salas e nos recreios, apesar dos preconceitos com que saíam das suas casas, acabariam por esmaecer as paixões e esquecer as injúrias e os agravos? Os desacertos são sempre dos adultos, não de quem lhes tem de obedecer.

Desde o início da presente Intifada, de acordo com o ramo palestiniano da Defence for Children International, já morreram 523 crianças. Ou seja, 19 por cento do total das vítimas. E os israelitas, a respeito do mesmo período de tempo, apontam para perto de cem. Em percentagem aproximada: 31,6 por cento. Há, assim, um total de 623 crianças que não conseguiram viver, porque os seus pais decidiram, com acusações mútuas, tratar-se à lei da bala. É triste e lamentável.

E, sobretudo, profundamente irracional. Quando duas comunidades que vivem em territórios afins ou comuns não se entendem, as armas só servem para agravar as relações. A um golpe de força, outro mais duro se segue. E assim numa espiral que não se sabe jamais como vai terminar.

Os mais jovens pagam com a vida os ódios e as rixas dos adultos.

A racionalidade do homem é aquilo que o distingue de uma besta. Por isso, quando esta não actua, a degradação do ser humano não conhece contornos. E esquece que quem lhe vai suceder no rodar do tempo, a criança, nem sequer pode usufruir do direito àquilo que dela menos depende: o de viver tranquilamente e de aprender a ser homem, contemplando o exemplo dos adultos. Em muitos casos, como se vê, tudo isso lhe é negado com a injustiça da própria morte intempestiva.




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