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Um em cada quatro jovens

É sempre estranha a transformação das pessoas em indicadores estatísticos. Umas vezes, temos o privilégio de estar no número que representa o lado vantajoso das coisas.

N/D
28 Mar 2004

Um em cada cinco portugueses é pobre, segundo indica o organismo da União Europeia que trata da estatística, e nós temos a sorte de estar entre os quatro.
Outras vezes, estamos no lado errado. Um em cada quatro portugueses é candidato a morrer de acidente vascular cerebral por ser hipertenso e nós estamos nesse lote.

Quem passeia os olhos pelos jornais tropeça continuamente no “um em cada três” que tem isto, nos “quatro em cada cinco” que fazem aquilo, nos “dois em cada sete” que qualquer coisa ou nos “oito em cada oito” que não escaparão ao destino.

Em muitos lugares do planeta, parece ser mais difícil escapar ao destino. Na semana que passou vários jornais recordaram-nos que diversos problemas – problemas velhos, refira-se – continuam a afectar, em vários cantos do mundo, muitas crianças e adolescentes. E a proporção “um em cada quatro” parecia estar em voga.

“Uma em cada quatro” crianças angolanas não viverá até aos cinco anos, lembrava o “Jornal de Notícias” de quinta-feira, citando um relatório da Global Witness.

A organização, que, pela enésima vez, denunciou os crimes cometidos pelo presidente angolano e pelo bando que ele chefia, afirma que desapareceram dos fundos angolanos, em média, 1,7 mil milhões de dólares por ano entre 1997 e 2001. Isto significa que “uma em cada quatro” partes do orçamento anual do estado angolano volatiliza-se para reaparecer nas contas dos dirigentes do regime.

Também na semana passada, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé reclamou uma governação transparente, pedido que, certamente, as sinistras autoridades angolanas não atenderão pois sem opacidade o regime não subsiste.

Os bispos exigiram ainda o fim da guerra em Cabinda que tem dizimado crianças, velhos e mulheres inocentes.

A miséria das populações, o aumento de doenças como a Sida, o paludismo e a doença do sono, a deterioração dos serviços públicos, a desorientação cultural e a falta de transparência na gestão dos petróleos são, segundo a Conferência Episcopal, algumas das características de Angola.

O segundo país africano que mais petróleo produz está entre os que têm um mais baixo índice de desenvolvimento humano. Há sítios, onde a governação apenas serve para demonstrar de que modos a riqueza consegue gerar mais pobreza.

O diário israelita “Haaretz” publicou no dia 16 uma entrevista com o psiquiatra Iyaad al-Saraj, que deu conta que, de acordo com um estudo recentemente efectuado pelo Gaza Mental Health Center, que ele dirige, “uma em cada quatro” crianças ou adolescentes palestinianos tem como desejo mais forte ser um mártir quando completar 18 anos.

Ouvidas 944 crianças e adolescentes, concluiu-se que 97,5% sofre de um síndroma de stress pós-traumatico.

O diagnóstico indica que 32,7%, manifesta sintomas graves. 94,6% das crianças assistiu a funerais e 83,2% testemunharam incidentes com tiros. 61,6% viu um próximo ser morto ou ser ferido e 36,1% inalaram gás lacrimogéneo.

Compreende-se facilmente que as crianças e adolescentes palestinianos sejam, como observou Iyaad al-Saraj (que há oito anos esteve preso por acusar Yasser Arafat de protagonizar uma governação corrupta e ditatorial) incapazes de sorrir.

Em Portugal, também há registos do “um em cada quatro” jovens. A celebração, no passado dia 18, do Dia Nacional de Alcoólicos Anónimos serviu para lembrar que a Organização Mundial de Saúde estima que o álcool está na origem da morte – incluindo, claro, as que são provocadas por acidentes de viação – de “um em cada quatro jovens” entre os 15 e os 29 anos.

Dias antes tinha ficado a saber-se que, no Brasil, em S. Paulo, “um em cada quatro” jovens com menos de 18 anos é dependente de drogas. As referências a crianças com 4 ou 5 anos de idade que inalam cola de sapateiro são, aliás, abundantes.

É sempre estranha a transformação das pessoas em indicadores estatísticos. Em todo o caso, não há particulares objecções a colocar a quem trabalhar para conseguir ter estatísticas que traduzam uma melhoria da vida das pessoas.

Ninguém, pois, se irritará se este “um em cada quatro” se transformar, a curto prazo, em “um em cada setenta”. Por exemplo.




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