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Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão

Ainda estamos a quente com o que se passou em Madrid no dia 11 de Março e eu recordo estas palavras que foram escolhidas por João Paulo II para a mensagem do Dia Mundial da Paz de 2002. Esta mensagem seguiu-se ao grande atentado do 11 de Setembro nos Estados Unidos, onde se cometeu um crime muito grave: em poucos minutos morreram milhares de inocentes e o mundo começou a viver, não num estado de alerta, mas num estado de medo. Neste contexto a Igreja deseja dar testemunho de esperança, fundada em que a convicção do mal, o mysterium iniquitatis, não tem a última palavra.

N/D
27 Mar 2004

Como se pode falar actualmente de justiça e de perdão como fontes de paz? O Santo Padre afirma que não só se pode, como se deve falar disso apesar da dificuldade que acarreta. O perdão opõe-se ao rancor e à vingança, não à justiça. Na verdade a verdadeira paz é “obra da justiça” (Is 32, 17).

O perdão não se opõe à justiça, porque não consiste em ficar tolhido face às legítimas exigências de reparação da violação da ordem. O perdão tende para a plenitude da justiça que leva à tranquilidade da ordem e que, sendo muito mais que um frágil cessar das hostilidades, procura uma recuperação profunda das feridas. Para tal, justiça e perdão dão as mãos.

E que fazer face ao terrorismo? Como o terrorismo se baseia no desprezo da vida do homem, é um crime contra a humanidade e portanto existe o direito de defesa. É um direito que, como qualquer outro, se deve ater às regras morais e jurídicas. No terrorismo há que identificar pessoalmente os culpados e puni-los, mas nunca se deve culpabilizar as nações, as etnias ou as religiões aos quais os terroristas pertencem.

O combate ao terrorismo exige a colaboração internacional e o fim das injustiças e dos atropelos dos direitos fundamentais, pois quando tal não acontece aparece com mais frequência o terrorismo.

Claro que as injustiças existentes no mundo não podem ser pretexto que justifique os atentados terroristas. Os povos em vias de desenvolvimento, que vivem nos limites da sobrevivência são os mais prejudicados pelo caos económico e político. Quando o terrorismo diz actuar em nome dos mais pobres está a ser hipócrita.

Por vezes o terrorismo é filho do fundamentalismo fanático e tende a justificar-se invocando o nome de Deus. Ora procurar impor a outros com violência o que se considera como verdade, significa violar a dignidade do ser humano e ofender, portanto, a Deus. Neste caso o terrorismo manipula o homem e o próprio Deus. Assim, nenhum responsável religioso pode ser indulgente com o terrorismo e muito menos prega-lo.

A violência terrorista é contra a fé em Deus Criador do homem, que dele cuida e o ama. Em particular, é totalmente contrária à fé em Cristo, o Senhor, que ensinou os discípulos a rezar: “Perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12).

O perdão, antes de ser um acto social, nasce no coração de cada um, é uma decisão pessoal, uma opção do coração que vai contra o instinto de pagar o mal com o mal. Assim o perdão tem uma dimensão divina, bem clara naquelas palavras de Jesus na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

É necessária a valentia para perdoar, mas só assim conseguiremos uma sociedade futura mais justa e solidária. Pelo contrário a falta de perdão favorece os conflitos e atrasa o desenvolvimento dos povos.
O perdão a curto prazo parece uma perda, mas a longo prazo traz um proveito real.

As confissões cristãs e as grandes reli-giões da humanidade devem colaborar entre si para eliminar as causas sociais e culturais do terrorismo, ensinando a grandeza e a dignidade da pessoa e difundindo uma maior consciência da unidade do género humano. O serviço que as religiões podem oferecer em favor da paz e contra o terrorismo consiste precisamente na pedagogia do perdão porque o homem que perdoa ou que pede perdão compreende que há uma Verdade maior que ele e que, acolhendo-a, pode transcender-se a si mesmo.

Nota: Para escrever estas linhas socorri-me do texto da Mensagem do Santo Padre para o Dia Mundial da Paz do ano 2002.




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