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Uma pausa na lufa-lufa da vida

Começa a pressenti-lo com palavrinhas de lã, de um modo muito suave, quase imperceptível e inaudível; assim sem alarido, mas persistente. Interroga-se sobre cada um dos dois destinos que ele lhe sugere, pois ambos são do seu agrado embora em direcções opostas; terá que se decidir por um deles no caso de dar uma resposta afirmativa às palavras do convite.

N/D
26 Mar 2004

Hesita um pouco pois, qual criança irreverente, o tempo faz-lhe caretas: ora se abre num quente mas fugaz sorriso solar, ora se fecha num semblante (mais) carregado quando o astro rei se esconde por detrás de uma qualquer nuvem, mais pequena ou maior, de um cinzento quase alvo ou mais carregado que seja.
Faz-se à estrada por fim. À medida que avança vai reparando que a tem quase só por sua conta; se calhar pouca gente, ou talvez mesmo mais ninguém, tenha recebido o convite, vai pensando com os botões do seu tablier à medida que as rodas o levam mais para diante.

E começa a perceber que o tempo se lamenta de as pessoas lhe fazerem assim tão pouca companhia. Muitas são ingratas pois normalmente só costumam aproveitá-lo quando ele surge com cara alegre, mais morna ou mais quente, de acordo com a estação do ano; quando começam a poder descascar-se, um pouco que seja para matar saudades do Verão passado. “Mal agradecidas”, diz ele de si para si com uma cara mais sombria.

Considerando o momento em que saiu de casa, nem precisa de olhar para o relógio para ver que horas os ponteiros indicam pois está a começar de sentir a barriga a dar horas; o relógio do estômago nunca o engana. Fecha mais os vidros do carro, quase por completo, que na serra o f(r)io corta mais à medida que se vai subindo. Aproxima-se o fim da viagem; começa a encontrar “gente” conhecida; os “pinheiros” e os “carvalhos”, velhos amigos, cumprimentam-no mais uma vez.

No ponto de destino é recebido por uma reconfortante e acolhedora lareira, que aquece o ambiente. A chama que se desprende da lenha a crepitar é simulta-neamente vigorosa e serena. Tal como a vontade que ele tem de comer e que começa a sentir mais intensamente; o olor que lhe chega vindo da cozinha e das travessas para as mesas acicata-lhe a fome. Depressa a vai saciar; tal como as chamas que se vão alimentando das cavacas que começam também a consumir.

E assim se deixa embalar inadvertidamente: entre cada duas colheradas ou garfadas, um olhar sereno para as achas que se vão lentamente transformando num braseiro que lhe alimenta o espírito… E o café é acompanhado de um afrodisíaco digestivo: essas brasas incandescentes vão lentamente perdendo o rubor, à medida que se vão cobrindo com uma aconchegada caroça cinzenta, como que para conservarem mais o seu próprio calor.




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