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Novos pobres

Queixamo-nos com frequência que os media, em particular a televisão, passam a vida a moer-nos a paciência com notícias sensacionalistas, muitas vezes marcadas pela tragédia.

N/D
26 Mar 2004

Mas também é verdade que cada vez nos tornamos mais apáticos face ao desfile ininterrupto das carências humanas, sejam ou não descritas pela comunicação social. Só nos acorda um estrondo bombástico que ameace de perto a nossa segurança, ou abale a nossa acomodada tranquilidade. As notícias seguem, geralmente, as regras que lhes impomos, exigindo cada vez maior grau de excentricidade para merecerem o mínimo da nossa atenção.

O drama do desemprego, no nosso país, está a ganhar proporções de autêntica catástrofe nacional. Mesmo que, em percentagem, esteja abaixo de outros países ou seja puramente conjuntural. Por muito modernizados que estejamos, em perfeita sintonia com a Europa, fidelíssimos às exigências do deficit regulamentar, com holofotes virtuais ao fundo do túnel, esplendorosos sinais de retoma económica, nunca poderemos encontrar sossego face ao crescente número de empresas que impunemente fecham as portas e mandam os trabalhadores para casa.

Pode dizer-se que o cenário está a banalizar-se de tal forma que já não há cidadão que se comova diante desta repetição rotineira, e sem fim à vista, de homens e mulheres curvados de angústia, sem trabalho, e famílias inteiras sem o mais pequeno rendimento estável.

A Igreja em Portugal tem alertado para estes e outros dramas sociais. A Comissão Nacional Justiça e Paz, na sequência de uma análise fria e documentada, publicou nesta Quaresma uma verdadeira meditação social [ver DM do próximo domingo, no suplemento “Igreja Viva”]. Levanta muito justamente a sua voz contra este escândalo, consentido não apenas pelas conveniências políticas, mas também pelos cidadãos que se vão acomodando e calando face a carências sociais dramáticas, nomeadamente a praga do desemprego.

Não é questão partidária ver homens e mulheres às portas das empresas, como mendigos dos seus próprios direitos. Sabe-se que grande parte dessas empresas, ao fecharem e despedirem trabalhadores, mais não fazem que uma encenação teatral para irem obter maiores lucros num qualquer recanto com auréola de global.

O país devia sentir mais intensamente este luto por tantos homens e mulheres que foram lançados na indigência, além da humilhação e da angústia que atravessam as suas vidas.




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