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1984, de G. Orwell, revisitado?

O terror e a guerra ao terror, dos nossos dias, criam sombras que evocam parte da realidade ficcionada por Orwell, em 1948, na qual a liberdade é espezinhada através da mentira, do medo e da autocracia.

N/D
26 Mar 2004

Todos os leitores conhecem certamente o funcionamento do célebre concurso televisivo Big Brother, pelo qual eram provocados para se deliciarem com a devassa da privacidade alheia. Porventura alguns leitores desconhecerão que a designação deste concurso remetia para “mil novecentos e oitenta e quatro”, uma obra de ficção de George Orwell, publicada em 1948, na qual a figura que tutelava impiedosamente a Oceânia (área onde decorre a trama e da qual fazia parte Londres) era conhecida por todos como o Grande Irmão.
O Big Brother, na expressão inglesa, personificava o vértice de um sistema que, através da videovigilância, da propaganda desenfreada, da reescrita da História e da polícia do pensamento, negava a mais elementar liberdade de pensamento aos habitantes da Oceânia e obstaculizava qualquer veleidade comportamental mais heterodoxa.

Por outro lado, a guerra mostrava-se uma realidade quase permanente, opondo a Oceânia à Eurásia ou, alternativamente, à Lestásia. No tempo em que decorria um conflito, aquela destas últimas potências que, momentaneamente, estivesse do lado da Oceânia era persuasivamente propagandeada como tendo sido desde sempre uma fiel aliada enquanto que a potência guerreada era descrita como sendo um perene inimigo.

Para impor as “verdades” do momento era decisiva a acção do Ministério da Verdade, onde se reconstituía a História através da destruição de todos os documentos inconvenientes – os que propiciassem análises diversas das oficiais – enquanto que simulta-neamente eram forjados novos testemunhos e fontes “credibilizadoras”. O governo compreendia ainda o Ministério da Paz, que tratava da guerra, o Ministério do Amor, com a função de manter a lei e a ordem, e o Ministério da Fartura, para atender às actividades económicas. Nesta ficção, oscilante entre o ácido, o irónico e o depressivo, muitos viram uma metáfora para denunciar o totalitarismo soviético da época.

Mas onde se cruza esta ficção com a realidade de hoje, poderá questionar-se o leitor, incomodado com esta aparente deriva literária, quando acima me proponho abordar também os traumas e os perigos associados ao terrorismo e à guerra ao terror? Pois bem, parece-me poder constatar-se que nos últimos tempos, um tanto à imagem de Oceânia, também o espaço das democracias, e o mundo em geral, se mostra mais belicoso, inseguro e ameaçado na liberdade.

O século XX foi um século paradoxal: a par de inventos notáveis, como a televisão ou o computador, e de avanços na engenharia genética e no crescimento da riqueza (sobretudo no mundo Ocidental) observou-se também o desenrolar de duas violentas guerras mundiais, sendo que na última se experienciou nos humanos o terrível poder da nova bomba atómica. Parece hoje a todos evidente que sendo a ciência indispensável para se alcançar o progresso, a mesma carece de ser envolvida por ponderados cuidados éticos e políticos para que dos seus avanços não advenham grandes desastres.
O bipolarismo saído da segunda guerra mundial conteve durante 45 anos “em limites suportáveis” os diferentes conflitos regionais.

Porém, com a vitória na guerra-fria os EUA, depois de um curto “devaneio” multilateral, afirmam-se agora, com o actual presidente Bush, com uma pose de grande império, desdenhoso das opiniões dissonantes ainda que provenientes de aliados prestáveis até há pouco tempo.

Aos terríveis atentados de 11 de Setembro de 2001 seguiu-se uma guerra punitiva contra o Afeganistão, genericamente aceite no Ocidente e, tanto quanto parece, compreendida em parte do mundo muçulmano. Posteriormente, há um ano atrás, perante a oposição do Conselho de Segurança da ONU, e contra grande parte da opinião pública ocidental, para não falar obviamente do mundo muçulmano, foi lançada a guerra preventiva contra o Iraque, sustentada em pretextos até agora desmentidos pela realidade e que por isso, cada vez mais, parecem ter resultado de grande “engenharia política”.

Hoje, um pouco à imagem de Oceânia, relembro, e ao invés dos objectivos proclamados, os medos da guerra e do terror estão mais presentes na cabeça das pessoas. Ademais, torna-se também evidente para muitos analistas que enquanto o governo dos EUA não se empenhar decididamente, e de forma mais neutral, na resolução do conflito israelo-árabe a conflitualidade entre o mundo islâmico e o Ocidente permanece fortemente estimulada.

De forma mais candente, após os igualmente brutais atentados de Madrid, afigura-se agora, aos diferentes governos ocidentais e à maior parte da população destes países, necessário tomar novas providências para abater ou, ao menos, minorar a violência terrorista (a civilização Ocidental é declaradamente o alvo preferencial dos terroristas).

O aumento da videovigilância, dos controlos policiais e do cruzamento de dados pessoais serão decerto alguns dos meios deste combate, de onde resultará provavelmente alguma contracção da habitual liberdade de movimentos. A democracia terá que ser e será decerto preservada, mas as preocupações com a segurança podem de facto propiciar-nos a evocação de algumas das limitações à liberdade observadas na Oceânia descrita por Orwell.

Mas devemos preservar o optimismo no apego dos povos à verdade e à liberdade. Tal como Winston Smith (o protagonista de 1984 que nos permite conhecer a Oceânia) apesar de todos os constrangimentos se revoltou em nome da liberdade, em Espanha, na sequência dos atentados de 11 de Março, contra o que pareceu uma reescrita da história dos mesmos pelo Governo de Aznar, decerto com medo mas também decididos na preservação do direito à verdade, em liberdade, os espanhóis também escolheram o seu destino.




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