Fotografia:
Um país que não gosta de “mentirosos”…

1- A invejável clarividência dos espanhóis – Reza um velho fado de Coimbra: “diz-me sim, mesmo que mintas”. Já um dos últimos sucessos de Raul Iglésias, o filho do galego Júlio Iglésias, intitula-se, criticamente, “Mentiroso”.

N/D
25 Mar 2004

Mais que os portugueses e os italianos, os espanhóis têm a fama (e o proveito) de prezar a franqueza, a lealdade e a verdade. O espanhol típico, sobretudo o castelhano-leonês, o asturiano, o basco-navarro e o aragonês, têm uma cultura de “hombredad”, originada, quem sabe, pela necessidade de se ter de poder confiar inteiramente nos vizinhos durante os longos 800 anos que durou a Reconquista.
Em Espanha quem mente, em geral não vai longe. Ao menos na cotação social. Com certeza que em relação aos políticos, os espanhóis serão contudo mais tolerantes. Mas não em questões de 1.ª importância, como foi o que se passou há dias com José Maria Aznar. Aznar (tal como Bush, Straw, Blair, Berlusconi, Barroso ou o seu escravo Portas) haviam mentido aos respectivos povos acerca dum pretensa necessidade imperiosa de invadir o Iraque, nação soberana que lhes deveria merecer mais respeito, pois é o berço penta-milenar das civilizações semíticas. Pretextavam falsamente, que o presidente iraquiano queria destruir o mundo (ou algo de parecido) com armas químicas, imagine-se…

A invasão e conquista do Iraque, dada a superioridade dos armamentos e a facilidade do terreno, foi rápida e bem sucedida. Mas a guerra foi altamente impopular, em qualquer das nações “vencedoras”.

Aznar, tal como os outros 1.os ministros atrás citados (sobretudo Blair), não atendeu às manifestações, imensas e repetidas, dos povos impotentes sobre os quais governava. De Londres a Madrid e Lisboa; de Berlim a Roma e Paris, era inequívoco o sentimento largamente maioritário dos europeus contra aquela invasão e conquista, perfeitamente injustas, anacrónicas e ilegais à face do Direito Internacional e da vontade das Nações Unidas. Mas Aznar mentiu e disse que eram “justas” e “necessárias”.

E Aznar haveria de mentir gravemente uma 2.ª vez, agora na véspera das eleições de 14 de Março passado. Ele e o seu sucessor (o galego Mariano Rajoy) garantiram ao povo que havia prova de que tinha sido a ETA (e não os fanáticos muçulmanos) quem tinha perpetrado os miseráveis atentados nas 3 estações de Madrid, a 11 de Março.

É que, se se provasse (como está agora a acontecer) que o massacre de 200 espanhóis inocentes era uma bem sucedida vingança pela ajuda que os mesmos espanhóis haviam prestado aos americanos e israelitas naquela injusta conquista, ficaria provado afinal que aquela guerra (impopular para 90% dos espanhóis) havia sido também um amargo fracasso nos seus proclamados objectivos securitários. E isto porque, até hoje, o único terrorismo que perturbava Espanha era o dos bascos, com acções de relativa pequena monta, com pré-aviso de deflagração e com objectivos normalmente restritos e raramente civis.

2 – Mortos que votaram sem saber – Há, com as devidas distâncias , uma certa analogia entre a Paixão de Cristo e o massacre perpetrado nas 3 estações de Madrid. É que, diz a nossa Religião, Jesus Cristo morreu para salvar a Humanidade e redimi-la do Pecado. E paralelamente, aquele holocausto madrileno também serviu para que o espírito dos espanhóis se abrisse para a Realidade; e se libertasse de vez da grosseira mentira de que a injusta conquista e ocupação do Iraque alguma vez contribuiria para o enfraquecimento do Fundamentalismo Islâmico e das suas manifestações mais violentas. Enfim, ao contrário do que o pouco culto Bush e o cínico Blair proclamaram, o Mundo é hoje um local bem menos seguro do que já era antes.

E é irónico que os 1500 mortos e feridos de Madrid, sendo a maioria deles provavelmente também contra a guerra, tivessem sido vítimas dum acto de guerra perpetrado por aqueles a quem não desejavam mal. O terrorismo (por ser desesperado) é cego e impiedoso. E há que usar da habilidade necessária para o evitar.

Não podendo votar, as vítimas, contudo, como que protagonizaram um “voto qualificado”, fruto da revoltante tragédia que lhes aconteceu. E o mesmo se diga da Al Qaeda e de Bin Laden (se este ainda for vivo…). É uma versão moderna, por sinal apesar de tudo bem suave, da “longa manus” que o Califado de Bagdade teve outrora sobre a mesma Espanha…

3 – Ilusões sobre Zapatero e o Islamismo – Como uma negra tempestade e trovoada a seguir à qual os céus se limpam, assim foi contudo a brutal imolação das vítimas de Madrid.

Porém, a duradoura injustiça que paira sobre o Iraque pode comprometer a imagem dos conservadores espanhóis por muitos anos. O que é grave, pois em Espanha as Esquerdas (que o Franquismo foi obrigado a conter por 40 anos) têm uma certa tradição de desequilíbrio e violência. Já para não falar da sua simpatia leviana e intolerável permissividade em relação aos aleivosos separatismos anti-ibéricos.

A mesma opressão sobre o povo do Iraque irá por outro lado fortalecer perigosamente a Unidade e o Nacionalismo árabes, numa época em que o Nacionalismo (ainda que moderado) dos povos europeus continua a ser considerado pela maioria dos “fazedores de opinião” como um pecado intolerável. E políticos que os atentados de Madrid demonstraram ser sensatos, como Le Pen ou Jörg Haider, eram tidos por “extremistas”; ou saudosistas dum passado que aqueles outros pensavam morto.

A tragicomédia (ou farsa) que hoje está a ser levada à cena no vetusto Iraque contribui também para o incrível fortalecimento da religião islâmica, numa altura em que infelizmente, como bem sabem, o Cristianismo sofre de uma certa estagnação. Não só como religião, mas até como civilização, perdendo terreno para o hedonismo, para a imoralidade, para o vício e até para a retrógrada bruxaria.

Não admira pois, que neste cenário Bin Laden seja considerado por muitos maometanos como uma espécie de S. Sebastião (se for preciso, até porque já morreu…) ou de Robin dos Bosques (de “Robin Laden dos Bosques”, passe a piada, pois a situação é grave). Mas o mais grave é que se pressente também em alguns cristãos uma secreta simpatia por este herói “do lado de lá da muralha”. A explicação para isto é que no Ocidente não há verdadeiros heróis. O melhor que temos são apenas os Blairs e os Bushes, as Boninos e os Garzóns…




Notícias relacionadas


Scroll Up