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Após o dia da Mulher

Celebrou-se no começo deste mês o Dia Internacional da Mulher. Foi mais uma oportunidade para se chamar à atenção para os condicionalismos que envolvem a Mulher, hoje.

N/D
25 Mar 2004

Falou-se muito nas desigualdades entre o homem e a mulher, referindo-se particularmente o que acontece no mercado do trabalho: há mais mulheres desempregadas do que homens; há mulheres com salários mais baixos do que os homens; há sectores de actividade onde as mulheres têm dificuldade em entrar.
Falou-se do trabalho doméstico, que muitas vezes recai só sobre a mulher e que nem sempre é devidamente considerado.

Falou-se do assédio sexual, dos maus tratos, da violência doméstica, de que nem sempre mas muitas vezes a grande vítima é a mulher.

Falou-se ainda da gravidez de adolescentes, do planeamento familiar, da educação sexual, do aborto.

Grande parte das coisas que se disseram são chavões anualmente repetidos, o que pode significar uma de duas coisas: que as reivindicações que se fazem a favor de uma melhor situação da mulher não têm fundamento – o que, em muitos casos, não creio – ou que tudo se reduz a uma questão de bonitas palavras de solidariedade de que ninguém faz caso.

Em relação à tónica geral a que aludi, houve, das diversas mensagens que li, uma que destoou: a da Associação Portuguesa de Famílias Numerosos (APFN).

(Diga-se, entre parêntesis, que destoar nem sempre é mau. Depende da situação. Destoar pode significar que se não vai na onda, que se tem a coragem de discordar, que se pensa pela própria cabeça, que se não tem medo de ser diferente quando há a convicção de que se deve mesmo ser diferente).

Referindo-se à mulher «mais frágil e vulnerável – a adolescente e a mulher sem meios, ou sem família, que alguns partidos tanto dizem defender, ao propor a liberalização de métodos anti-conceptivos, abortivos e novas aulas de ‘educação sexual’ – lia-se na mensagem da APFN: «para ela e em nome dela, pedimos a quem nos governa a defesa do seu direito à educação integral, isto é, instrução e formação, acesso a uma profissão, salário, habitação e assistência condignas, sem que para sobreviver tenha de abortar ou se tenha de prostituir pelas ruas e estradas deste país».

De tudo quanto li a propósito do Dia Internacional da Mulher foi esta a única mensagem em que vi uma referência clara a uma das coisas que afecta gravemente a dignidade da mulher e a que é necessário pôr termo: a prostituição. Prostituição que se reveste das formas mais sofisticadas.

Prostituição que leva a que mulheres vivam sequestradas em casas de diversão nocturna. Prostituição que leva a que mulheres sejam enganadas através de falsos anúncios de honestos empregos.

Prostituição que anda aliada ao tráfico de crianças e de adolescentes. Prostituição em que a mulher é explorada sexualmente e convertida em objecto que se aluga ou que se vende. Prostituição que se tornou numa das mais vergonhosas e lucrativas formas de fazer crescer a conta bancária de gente sem escrúpulos.

O tráfico de seres humanos, lia-se no «Correio da Manhã» de 23 de Outubro, uma nova forma de escravatura, rendeu no ano passado 12 mil milhões de dólares, podendo já ter ultrapassado o lucro do tráfico de droga, e movimenta por ano um milhão e duzentas mil mulheres e crianças.
Na Albânia, uma mulher custa 50 euros a um traficante.

No mesmo jornal informava-se que uma ucraniana de 19 anos, aliciada em Nápoles por um compatriota que lhe prometeu emprego e legalização em Portugal, durante três meses em que foi obrigada a prostituir-se em Coimbra deu a ganhar ao patrão quatro mil contos.

Que o Dia da Mulher se não celebre apenas em 8 de Março mas que todos os dias sejam dias da Mulher, isto é, que todos os dias se pugne, de facto, mais com actos do que apenas com palavras, por uma verdadeira dignificação da mulher.




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