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O amor acontece ou “muerte a la muerte”

São três horas e cinquenta minutos do dia vinte e dois de Março de 2004. Respiro fundo. Nunca vos aconteceu terem imensas coisas para dizer sobre uma data de assuntos e simplesmente não vos apetecer falar nisso? Acontece-me a mim, neste preciso momento. Acendo um cigarro e passa-me pela cabeça que devia deixar de fumar. Não vai ser hoje.

N/D
23 Mar 2004

Uma questão inquieta-me: será o Amor um pilar da Humanidade? Numa altura em que seria óbvio emitir opinião sobre o terror agradeço a mim mesmo por este feitio esquisito que se deixa impressionar mais depressa pela beleza do que pela fealdade. Vi, pela segunda vez, há poucas horas, um filme simples e bonito. Chama-se “O Amor acontece” e a ideia que lhe subjaz é precisamente a de que o Amor é, por excelência, o pilar da Humanidade. Logo no início do filme, há uma observação que dá que pensar.

Aquando dos atentados de 11 de Setembro houve inúmeras chamadas de telemóvel, feitas por ocupantes dos aviões sequestrados pelos terroristas, poucos minutos antes de perderem a vida, que ficaram gravadas em atendedores de chamadas. Telefonemas de filhos para as suas mães, de maridos para as suas mulheres, de namoradas para os seus namorados, de pais para filhos, de irmãos para irmãos, de amigos para amigos.

Não há registos de que tenha sido efectuada uma única chamada para exprimir ódio, raiva, rancor ou ressentimento. Apenas amor. Lembro-me particularmente de uma: “Querida, o avião foi tomado por terroristas, tenho medo, acho que vou morrer. Quero que saibas que te amo muito. Muito… Diz aos miúdos que o papá os ama muito. Um beijo. Amo-te.”. Algo de semelhante aconteceu em Madrid e nesse estranho sentido houve vida nos malditos comboios da morte. Dois a dois: os terroristas podem, às vezes, empatar, mas não ganham nunca.

A luta contra o terrorismo não resulta, ao contrário do que possamos pensar, de um choque de civilizações. Quando falamos de amor e ódio, ou de liberdade e intolerância, não nos referimos a cristãos, nem a judeus, nem a muçulmanos, nem a hindus, nem a budistas, nem a ateus, nem a agnósticos. Estou certo de que, se fosse possível dividir os povos pelas suas convicções religiosas e manter a objectividade nos fundamentos da divisão, apenas encontraríamos amor, porque é amor que encontramos nas palavras de Cristo e nas de Maomé.

A questão não é, de todo, religiosa, mas também não é civilizacional. As questões civilizacionais que existem entre o Ocidente e o mundo árabe merecem o diálogo intercultural e ecuménico que a consciência global proporciona, mas não há nem haverá maneira de dialogar com bombas. Aliás, o mundo árabe, em particular, tem sido a maior vítima do terrorismo que usa o nome de Deus em vão.

Jamais esqueceremos os atentados na Turquia, ou em Marrocos, ou no Iraque. É preciso sermos fortes com o terrorismo porque, como escrevia Pacheco Pereira, há dias, no Público, é a fraqueza, e não a força, que atrai as bombas. No entanto, essa é apenas uma das frentes da guerra contra o terror.

A outra, verdadeiramente decisiva, passa por fazer acontecer o Amor lá, longe de nós, onde pessoas como nós, por ignorância, por medo ou, simplesmente, porque levam uma vida de cão, se deixam seduzir pelo ódio. É urgente mudar para melhor a vida dos desgraçados que se oferecem para serem bombas humanas, para que não continuem a fazê-lo. Nesse dia, o terrorismo tende a acabar.

Até lá, devemos continuar a viver como temos vivido. Não abdicaremos dos nossos valores. E diremos aos nossos amores que os amamos. Aos nossos pais, aos nossos avós, aos nossos amigos, às nossas paixões, à nossa família, ao nosso mundo. O Amor acontece e nós não cabemos em nós de felicidade. Nós queremos é que aconteça mais.

Quando o filme acaba, ouve-se uma música que diz algo como isto: “Só Deus sabe o que seria da minha vida sem ti”. Acaba bem.

P.S. – Neste momento são dezasseis horas e trinta e cinco minutos e preparo-me para enviar o artigo por e-mail para a redacção do jornal. Acabei de passar os olhos no Diário do Minho de hoje e reparei, na página dezassete, que o Papa disse: “O Amor é mais forte do que o terrorismo”. Era exactamente isso que eu queria dizer. Independentemente de concordarmos mais ou menos com cada um dos diversos aspectos do vastíssimo pensamento de João Paulo II, devemos reconhecer que ele deu sempre este exemplo. Por isso, o nosso Amor está com ele também.




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