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Não fizeram grande serviço

O atentado perpetrado em Madrid demonstra, com clara evidência, que não há defesa contra o terrorismo. Sem consciência que se culpe, nem rosto que se mostre, esta cobardia actua tão impenetravelmente como água vadia. E tanto faz que se chame Al-Qaeda como ETA. O medo tornou-se universal e não existe povo algum no mundo que não tema um atentado destes. Portugal também treme pelo Euro 2004, consequência do apoio que deu aos invasores do Iraque.

N/D
22 Mar 2004

Presentemente, por isso mesmo, treme mais que qualquer outro. A impotência dos poderes para travar o terrorismo é visível. Um destes dias fomos surpreendidos pela notícia de que um jornalista, em Lisboa, pôde deixar um embrulho na gare do Oriente, sem qualquer dificuldade! Como se fosse preciso alguma coragem para transportar uma mala ou uma mochila com uma bomba armadilhada, ou fosse necessária muita astúcia para passar despercebido, em qualquer sítio de passagem de gente, como a gare do Oriente!
Foi a evidência do evidente como diria o outro. Parece-nos que este tipo de reportagem, que tem como único objectivo aumentar as vendas do jornal, são, primeiro uma infantilidade, segundo uma pedagogia perigosa e, por último, um ensinamento e uma lembrança pouco recomendáveis. Indicar um caminho é convidar alguém a trilhá-lo.

Demonstrar como são fracas as defesas nacionais? Como se as houvera fortes em qualquer parte do mundo! Estes caçadores de oportunidades só existem porque estimulados pelos conselhos de redacção; estes não só as encorajam como lhas publicam e pagam. Presta um mau serviço quem assim faz e muito pior serviço fazem contra a tranquilidade dos portugueses. São realmente exploradores do pânico público e, na sua ânsia de ganharem um bom furo, não cuidam de saber que o medo faz parte da estratégia do terrorismo. A isto podemos chamar prostituição jornalística.

A deontologia jornalística deve criar repúdio por esta vampiragem. Isto interessa? Não, porque as redacções de alguns jornais (não de todos, felizmente) pedem “sangue”, “suor”, “lágrimas”, muita “lama”, muito “escândalo”, muita “desgraça”. Porquê? Porque a virtude, a seriedade, a obra pia, a abnegação, só para falar destes valores, não fazem capa de jornais, nem abertura de telejornais e, portanto, não vende, e aquilo que não vende não interessa. E por que razão não se vende? Porque o público em geral só gosta de ler miséria.

Um dos processos a utilizar para se subtrair a este esgoto é duvidar do que se afirma na reportagem, pelo menos até que provem o contrário. Hoje, na era do televisivo, até o facto real, concreto, que parece estar diante dos nossos olhos, está subordinado ao espectáculo de massas. E este espectáculo reflectiu-se na comunicação escrita: por isso é que há órgãos de comunicação social sensacionalistas, prolixos, incendiários, panfletários, escandalosos, etc. Fazem o seu espectáculo dos títulos e das palavras.

O homem dos nossos dias, perante tanta e, por vezes, contraditória informação, tem imensa dificuldade em encontrar a verdade. Quando um qualquer fazedor de opinião, jornalista, comentarista, articulista, cronista, etc., etc., contar vantagens, perguntemo-nos sempre: a quem serve aquela notícia? Este método contém, se não toda a verdade, pelo menos um caminho para a encontrar. Para que serviu a prova da vulnerabilidade da segurança da gare do Oriente? A resposta só pode ser uma: para vender papel. Por isso é que dizemos: não fizeram grande serviço!




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