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Certos resquícios de gonçalvismo… na Igreja

O gonçalvismo foi, na história recente de Portugal, uma etapa assaz difícil de caracterizar, tanto ao nível ideológico como no plano político, embora tenha tido ramificações sociais, económicas, sindicais e (mesmo) eclesiais… ainda hoje sentidas. Quem não se lembra das alfinetadas contra pessoas e instituições, contra personalidades e trabalhos pastorais, contra adversários tornados inimigos… nesse longínquo “verão quente de 75”?

N/D
22 Mar 2004

Quem – infelizmente foram e ainda são muitos! – não se terá apercebido das benesses dadas aos padres tornados professores e outros catapultados para fundadores/gestores de centros paroquiais so-ciais? Quem se terá apercebido – na linguagem dita “profética” de certos bispos – das rasteiras de empurrarem a Igreja Católica – seja nos seus ministros seja nas instituições dela dependentes – para acções de empresas de segurança social, dos párocos/patrões em tantos lares, infantários ou mesmo enquanto distribuidores de “excessos da CEE”?
Estes tentáculos do gonçalvismo trouxeram protagonismo à Igreja Católica, mas enfraqueceu-se a capacidade genuinamente evangelizadora. De facto, não se pode pregar a estômagos vazios. Mas não se terá vivido menos do que era desejável a capacidade de anúncio de Cristo àqueles/as que recebem o pão do corpo sem fazer olhar para o alimento da alma!

Por vezes as autarquias (câmaras municipais ou juntas de freguesia), o governo central, as instituições de cuidado dos mais desfavorecidos da sorte (segurança social ou finanças), a comunicação social, etc., põem em destaque o papel da Igreja Católica no trabalho que esta desenvolve junto das franjas da sociedade mais fragilizadas. Há até quem conceda comendas e medalhas a padres e leigos que cuidam dos mais pobres, marginalizados ou excluídos. As expensas do Estado – dizem alguns entendidos e talvez menos anti-clericais – são melhor gastas quando entregues as obras administradas pela Igreja ou, pelo menos, sem as funções estatais.

Em muitos casos a força educativa – desde tenra idade – é confiada a instituições da Igreja Católica – centros paro-quiais muitos com o cognome de “bem-estar social” para serem aprovados ao tempo da sua erecção, em finais da década de 70 – onde as mensalidades continuam a ser tendencialmente baixas, sendo colmatados com parcerias, subsídios ou ajudas das entidades que tutelam esta área ao nível do Estado.

Quantas vezes para tentar receber mais umas migalhas se pode hipotecar a capacidade de justiça, tanto pela palavra como pelo testemunho! Quantas vezes por trás de uma fatia de subsídio se pode esconder o pactuar com coisas menos claras, fazendo o receptador viver em salamaleques pouco dignificantes! Quantas vezes, sobretudo em maré de eleições, parece que se rebuscam as gavetas de certos gabinetes quais utensílios de culinária em fim de festa!

Está na hora de fazer com que os padres – sejam párocos ou outros – se dediquem às suas tarefas evangelizadoras, deixando ao braço civil as coisas que os possam distrair do essencial do seu ministério.

Está na hora de, nos casos mais difíceis de resolver dados os compromissos já assumidos, entregar a leigos competentes a gestão dessas coisas onde a função sacerdotal – pelo sacerdócio baptismal – não exige um ministro ordenado!

Agora que o ensino está em crise de matéria prima (alunos), ainda se justificará que haja padres – mesmo que com habilitações próprias e acção benéfica – a tirar trabalho a outros professores?

As acções de cultura – tanto local como pela intervenção nos diversos campos do saber e do pensamento – não devem merecer mais atenção por parte dos eclesiásticos?

Até quando iremos confundir o altar com a mesa de negociações ou o genuflexório com a poltrona?

As teias podem enredar a todos…




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