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Por trás do massacre

A tragédia que no passado dia 11 matou em Madrid umas duzentas pessoas e feriu mais de um milhar merece que reflictamos sobre as causas que lhe estão na origem. Que façamos, como escreveu João Paulo II na Mensagem para o último Dia Mundial da Paz, «uma análise corajosa e lúcida das motivações subjacentes aos actos terroristas».

N/D
18 Mar 2004

Uma das causas do terrorismo é o desrespeito pelo direito à vida e pelo valor que a mesma vida é. A nossa e a dos outros. Põe-se em risco a vida com a maior das facilidades e mata-se uma pessoa como quem abate uma peça de caça. Não se tem em conta a dignidade do ser humano. É bom lembrar, como escreveu o Papa, que se combate o terrorismo «insistindo numa educação inspirada pelo respeito da vida humana em todas as circunstâncias». Por isso recomendo mais uma vez a leitura atenta da Meditação sobre a vida, divulgada no passado dia 6 pela Conferência Episcopal Portuguesa.
Uma outra causa do terrorismo é o progressivo afastamento dos valores cristãos, à frente dos quais está o amor a Deus e ao próximo. Um amor universal, gratuito e desinteressado. Um amor que leva ao perdão das ofensas e se estende aos próprios inimigos. Um amor que não paga com a mesma moeda mas é capaz de fazer bem a quem fez mal.

O grande mandamento de Jesus – o chamado mandamento novo – é o do amai-vos uns aos outros. Mas tem havido homens que lhe adulteraram a mensagem e em vez do amai-vos uns aos outros vivem o gramai-vos uns aos outros, o tramai-vos uns aos outros, o armai-vos uns contra os outros.

A sociedade descristianizada para onde nos querem levar é a sociedade da violência e não a do mete a espada na bainha. É a sociedade da incompreensão e não a do diálogo. É a sociedade da vingança e não a do perdão. É a sociedade do fanatismo e não a da tolerância. É a sociedade do egoísmo e do vale tudo. Na referida mensagem João Paulo II advertia de que a luta conta o terrorismo também se faz «removendo as causas que estão na origem de situações de injustiça, donde brotam tantas vezes os impulsos para os actos mais desesperados e sangrentos».

Relacionado com o afastamento dos valores cristãos está o afastamento de Deus e, em certos meios, uma ideia errada de Deus. Como que se considera Deus um ser vingativo e justiceiro, em nome do qual se fazem guerras, quando o Deus revelado por Jesus Cristo, sobretudo na chamada parábola do filho pródigo, é um Pai misericordioso, paciente e bom, que deseja entre os homens seus filhos – todos os homens – um relacionamento de verdadeira fraternidade. É bom termos presente – e volto a citar João Paulo II – que «a unidade do género humano é uma realidade mais forte que as divisões contingentes que separam homens e povos».

Impõe-se, meus amigos, um regresso a Deus e aos valores cristãos. A experiência mostra que uma sociedade sem Deus facilmente se converte numa sociedade menos humana ou até desumana. Facilmente se converte na sociedade da prepotência. Na sociedade do salve-se quem puder. Na sociedade do egoísmo desenfreado. Na sociedade onde a razão da força se sobrepõe à força da razão.

Temos de construir um mundo onde haja lugar para todos, onde todos possam viver, onde todos se sintam respeitados como seres iguais e diferentes que são, mas isso é resultado, não da vitória das armas ou das bombas, mas da vitória do amor.




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