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As novas cruzadas da Europa

Não sei se o texto da futura Constituição europeia irá ou não incluir, no preâmbulo, uma referência às raízes cristãs deste velho Continente, como pretendem vários dos seus Estados-membros, contra a firme oposição de alguns outros, entre os quais a França.

N/D
18 Mar 2004

Apesar de, pessoalmente, entender que tal referência é perfeitamente oportuna, justa e lógica, e ficar triste se a mesma vier a ser omitida, tenho de confessar que, na hipótese de omissão, não haverá motivos para grandes preocupações. O carácter intrinsecamente cristão da identidade cultural europeia é absolutamente incontestável.
Na verdade, mais do que a cultura greco-latina e o universalismo renascentista, o que verdadeiramente marcou a história e a arquitectura moral e espiritual dos povos da Europa foram os princípios e valores do Cristianismo. Basta ter presente que a Declaração Universal dos Direitos do Homem mais não é do que a versão moderna do Sermão da Montanha!

Então se assim é, interrogar-se-ão os meus estimados leitores sobre o que é que deve inquietar as nossas consciências e interpelar a nossa vontade. E a resposta é simples: a ausência de Cristo no coração de uma grande quantidade de europeus. O espírito cívico e o íntimo dos povos da Europa fecharam-se à doutrina do Evangelho. É essa a causa da imensa tragédia dos tempos hodiernos.

Para a superar, torna-se absolutamente urgente empreender duas grandes cruzadas, com um espírito diametralmente oposto ao que presidiu às que ocorreram nos tempos medievos. Uma, de carácter interno e intrinsecamente religioso, que vise o regresso de Cristo à vida espiritual dos europeus e cuja responsabilidade cabe, essencialmente, aos cristãos de todas as confissões. Outra, de cariz simultaneamente laico e religioso, que leve aos países do Próximo e Extremo Oriente e aos demais recantos do Mundo a mensagem de paz, justiça e ecumenismo ínsita ao anseio dos povos e aos desígnios da Divina Providência.

A preparação e realização desta última cruzada reclama dos Estados-membros da União Europeia (UE) a utilização coordenada da diplomacia e do empenhamento na reforma do direito internacional.

Ambas as vias são essenciais à resolução de toda a sorte de conflitos que afligem o Mundo e, sem elas, jamais será possível estreitar os laços que devem unir os povos e os Estados, prestar auxílio aos países pobres e consciencializar todos e cada um deles dos seus direitos e deveres recíprocos.

Por outro lado, importa que a UE se dote de uma força comum de defesa e segurança, suficientemente organizada, forte e rápida que, em caso de falhanço daquelas vias pacíficas, permita restaurar o império da lei internacional e da justiça onde quer que o mesmo seja bárbara ou grotescamente violado.

Aos cristãos fica reservada a tarefa apostólica de promover o diálogo ecuménico e intercultural sem o qual o êxito da globalização dignificadora do homem estará definitivamente comprometido. Sem outras armas que não as da doutrina humanista de Jesus Cristo – amor ao próximo, fraternidade, liberdade e igualdade essencial de todos os homens -, cabe-lhes abrir o caminho divino da paz e da concórdia universais.

E dada a importância fundamental do factor espiritual e religioso na vida e história das sociedades humanas de todos os tempos, espera-se que a laicidade que caracteriza os Estados europeus os não impeça de fomentar o diálogo e o respeito entre as diversas religiões e culturas. Sem imposições e sem preconceitos, como deve ser apanágio da isenção, independência e pluralidade próprias de qualquer Estado de Direito.

São estas, caros leitores, as novas cruzadas que se impõem à velha Europa.




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