Fotografia:
A honra da fraqueza…

A casinha debaixo das árvores junto ao mar…Do tecto sobe a fumaça.
Falta ela
Então como é triste a casa,
árvores e o mar (Bertolt Brecht)

N/D
18 Mar 2004

Há dias, um meu amigo francês foi a Lisboa e, por acaso, visitou o Panteão Nacional.

Ficou surpreendido ao ver uma panóplia e uma palinódia de figuras num dos lugares, que para os franceses, é sagrado. Não sei se assim é para os portugueses, a tantos crimes de lesa-cultura e arte estamos habituados, que tudo parece estar correcto…

Por entre várias figuras, aparece Camões ao lado de Fernando Pessoa, Humberto Delgado e Amália…
talvez em breve José Saramago e quejandos. Uma amálgama de figurantes e génios, que melhor traduzem a genialidade de certos corifeus e fautores, que fizeram o Portugal que somos, como miscelânea de raças, talvez nenhuma pura, ou raça nenhuma… ou daquelas descritas por Almada Negreiros, mas de invertebrados…

Estou do lado daqueles que pensam que para figurar num panteão tem que haver um grande mérito, dentro de uma escala e aferição de valores, embora um país seja a resultante de sombras e luzes, que foram cimentando e perfazendo a raça, trama, ou tramóia que somos, nem que seja de tramados, com brandos e suaves costumes, que confundem luzes e sombras com mosquitos, pirilampos e holofotes…

Cada um, porém, tem o seu valor e, como peças de um xadrez, constituem o axadrezado em caleidoscópio que somos, o tecido ou a teia que cosemos ou em que somos cosidos, trucidados ou tramados. Mesmo assim haverá uma escala de valores, vista por olhos que vêem, ou em travesti, ou em daltonismo, na certeza de que uns mais se distinguiram do que outros, todos agentes, mesmo os mais humildes, ou cuja glória não se vê ou não é tanto apreciada…, explorados ou foragidos, por falta de melhores condições, constituindo a glória ou a desonra de um povo…

Cada um foi ele e a sua circunstância, que o guindou, esmagou ou catapultou, como elevou aos píncaros do glorioso ou do pindérico, já que tudo é vaidade e pó… e só Deus vê e lê no mais íntimo dos corações…

Mas o meu amigo e esposa estavam espantados com a música autêntica e plagal da Amália, em símbolo da “Casa Portuguesa” muito alta, que percutia nos ouvidos como em dias de festas populares, ao som de tambores e trotar de cavalos, na cavalariça nacional, atordoando e estadeando a maneira de ser português, em festas de colorido e algazarra académica, bem expressiva das tertúlias estudantis. Já pensámos na figura que fazemos e exportámos para o exterior? Somos tão espontâneos que mostramos logo todas as fraquezas de uma só vez…

Quem será capaz de nos tragar assim? Seremos fruto de uma paideia original, que conquistou mares outrora, e com determinados valores deu novos mundos ao mundo? Fez uma revolução dos cravos e uma descolonização exemplar, deixando filhos abandonados aos tiros? Computariza tudo em futebol e folclore e rompe a bota rota da democracia?

Louva a Europa para regatear subsídios, pulveriza séculos de história com fundos ou esmolas, em andanças e comezainas, como canta loas à democracia e revolucionários, hipotecando a história, o passado, presente e o futuro? Para onde vamos com tais critérios? Queremos comer riquezas sem as produzir, angariar glórias sem combater, frenético sem conceber ou compreender os freios que nos impomos, cavalgando num progresso, que não é nosso e esmagando projectos que mal concebemos, nem sabemos apreciar?

Iremos todos para o Panteão Nacional da nossa desgraça, miséria, petulância ou pelintrice endémica, sempre a reboque de outros, ou vendendo-nos a ideologias ou interesses de sendeiros, que fizeram a história ou panaceia contemporânea?

Realmente, eu que nunca visitei o Panteão, por desprezo, sempre pensei que, volvidos alguns anos, tínhamos aprendido alguma coisa. Mas quem me avisou foi um estrangeiro ou ” estrangeirado”, que já não come as nossas patranhas, nem se deixa levar pelo que impingem aos portugueses, como pregão ou troféu das nossas maiores glórias ou das nossas desgraças…

Até quando continuaremos um povo adiado, a pautar a vida por outros valores e assim o apresentar às gerações vindouras? Um país assim mais parece uma cloaca da Europa. Mas seremos capazes de vender o lixo que produzimos aos que vamos receber, talvez mais pobres do que nós, mas mais instruídos?!




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