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777. Meu caro Zé:

1De certa actuação política se costumava dizer que só as moscas é que mudam. Hoje, claramente, se pode mesmo declarar que nem as moscas mudam, numa demonstração cabal de evolução na continuidade!

N/D
17 Mar 2004

Isto significa, em termos político-partidários, que se muda de partido e de ideologia para não perder o tacho ou a influência, num óbvio apego ao cinzentismo e à prática do camaleão!
A política transforma-se, assim, num pronto-a-vestir-pronto-a-despir que em nada dignifica os que nela militam, mesmo os mais bem intencionados e sérios.

Por isso, meu velho, o que vemos são sempre os mesmos a fazer as mesmas coisas, a desempenhar os mesmos cargos, a acorrer às mesmas mordomias. E sabes porquê? Muito simplesmente porque o espírito prevalecente é o do salve-se quem puder (já nos safemos, como em tempos dizia Jorge Coelho, referindo-se à actuação do seu partido), levando à corrida aos lugares doirados deixados vagos ou a criar, numa despudorada política de jobs for the boys! (A recente e desenfreada luta por um lugar nas listas ao Parlamento Europeu é disso declarada prova).

Mais concretamente, a Administração Pública e a nível de muitas autarquias é o local ideal, o chafurdo onde emerge toda a súcia de compadres, afilhados e enteados! E, deste jeito, temos, da base ao topo, uma máquina governativa partidarizada e, como tal, dominada pelo caciquismo e o fulanismo e não pela competência e transparência.

2. Pois bem, toda esta trama, caro Zé, se tece nos partidos políticos. E que dessa prática fazem escola, a ponto de qualquer militante exibir o respectivo cartão (de antiguidade, activismo e fidelidade partidária) como salvo-conduto para se apostar na primeira fila na disputa do próximo tacho!

Há, por aí, situações frequentes, onde o favorecimento pessoal e o pagamento de facturas partidárias se torna prática corrente. Quase como fatalidade ou lepra! Não se percebendo como todos podem, ao mesmo tempo, ser vermelhos, amarelos ou rosas!

Depois, meu velho, que acontece? A vida partidária não passa de uma actividade de caserna, onde nada de novo acontece e onde há défice evidente de criatividade, inovação, diálogo e participação!

Porque os partidos que temos se transformaram em autênticos feudos dos mesmos senhores e praticam a teoria do quem não é por mim é contra mim e têm, como noutros tempos, a prática da lista negra, do reviralho!

Triste e pobre país, como vês, que só tem deste estado de coisas, desta evolução na continuidade, colhido frustrações e desmazelos. E se a paixão da maioria dos políticos é trepar ao poder, nele montar e durar, a democracia não passa, assim, de uma oligarquia feita de uns só para alguns e… sempre os mesmos.

Obviamente, uma democracia de cordel, feita à imagem e semelhança de tais partidos políticos!

Venham daí esses ossos e até de hoje a oito!




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