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Versões hodiernas da ‘matança dos inocentes’

De forma recorrente vemos surgir na comunicação social a discussão à volta do aborto e – como no fatídico dia 11 de Março, este ano em Espanha e há vinte e nove anos em Portugal – do terrorismo, com certas lágrimas de crocodilo de intervenientes diversos… caldeando estes episódios com ‘leituras’ sobre o filme de Mel Gibson «A paixão de Cristo».

N/D
15 Mar 2004

Situemo-nos nos fait-divers com que certos políticos, à falta de projecto coerente e consistente para o país, tentam (sobretudo da tal dita ‘esquerda’) unir-se para entreter o povo. É por demais evidente que a expressão ‘interrupção voluntária da gravidez’ (ivg) não passa de um eufemismo de quem parece mais defender-se do que estar decidido em resolver o problema que leva tantas mulheres – ainda que se vá escondendo a referência ao homem neste assunto! – a recorrer ao aborto.
Quem tiver, porventura, ouvido alguma mulher a falar desta questão saberá que isso é um espinho na sua consciência – mesmo que só tenha coragem de o desabafar anos ou décadas depois – e uma ferida difícil de cicatrizar!

As armas desta batalha são desiguais, pois podemos constatar um lóbi pró-aborto bem implantado na maior parte da comunicação social. Veja-se a cobertura ao abaixo-assinado pedindo (novo) referendo sobre a matéria e a ignorância absoluta (com a ténue excepção da RR) do contra-abaixo-assinado do movimento ‘mais vida, mais família’!

Há figuras – como uma deputada de esquerda muito solicitada pelas televisões – cujo aparecimento e argumentação pró-aborto dá mais razão a quem o combata!

Quem se colocar num patamar menos fleumático desta questão poderá interrogar-se sobre a legitimidade de certas pretensões: parece uma brincadeira de crianças (como por exemplo ao berlinde) onde quem perde(u) provoca novo jogo (ou os que for preciso!) até que possa vencer, mais não seja por alguma desatenção da outra parte ou pelo cansaço de tantas tropelias trazidas à colação!

De facto, a ivg, para qualquer cristão bem formado, poderá ser lida como uma matança de inocentes pior do que a do sanguinário contra Jesus!

Por outro lado, causaram-nos arrepios e constrangimento as imagens dos atentados em Madrid a onze de Março passado. Mais de duas centenas de mortos, feridos a ultrapassar milhar e meio, prejuízos humanos, morais e económicos avultados… à mistura com revolta e incredulidade.

Independentemente da autoria desta carnificina, sentimos a vulnerabilidade dos meios de transporte (no caso o comboio, mas poderão ser outros), a acção ignóbil dos executantes – sejam quais forem os objectivos – sem rosto nem pátria.

A matança dos inocentes está hoje ao sabor de um qualquer alucinado, bastará congeminar um projecto de vingança, infiltrar-se na multidão e os estragos são irreversíveis. Temos de saber, cada vez mais e melhor, equacionar a liberdade com a segurança. Aquela poderá ter de ser mais controlada para podermos pessoal e colectivamente viver em segurança.

Ao vermos as imagens dos atentados de Madrid (ou outros mais espectaculares) ficou-nos a sensação de que as investidas sobre o (excesso) sangue na ‘Paixão de Cristo’ do filme de Mel Gibson continuam actuais. Com efeito, a violência cinéfila passa – se bem que o retrato de Cristo continue vivamente sofredor nos homens e mulheres do nosso tempo – enquanto se aviva a agressividade continuada nas ruas, nos teatros de guerra e nos confrontos entre pessoas, nações, povos ou culturas.

Nesta cultura do soft, macio e melífluo, as imagens da ‘Paixão’ podem servir-nos para arrepiar caminho pela conversão, em tempo de Quaresma, a Deus e aos outros. A quem interessa explorar um certo anti-semitismo neste filme se não aos judeus jacobinos ricos americanos?

Não estaremos diante de um combate ao sincretismo ‘new âge’, incomodando, por isso, Cristo certas consciências?

Porque há tanto medo em falar de sacrifício? Porque teremos todos, nesta sociedade plural, de embarcar no discurso monolítico, rotulando os que pensam, sentem ou vivem de maneira mais exigente a sua fé de ‘conservadores’, ‘reaccionários’ ou ‘fundamentalistas’?

Ainda sem ter visto ‘Paixão de Cristo’ considero salutar ter trazido para discussão de rua a entrega de Jesus Cristo por nós homens e para nossa salvação (‘propter nós homines et propter nostram salutem’) !

Afinal estamos em tempo de meditar sobre a vida…




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