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Será que ele é candidato?

Na apresentação do segundo volume da sua autobiografia, Cavaco Silva demonstrou, com toda a evidência, que é um possível candidato a Belém. Nunca disse não, mas disse talvez. Apenas três circunstâncias não lhe permitem dizer, desde já, que é candidato: a primeira pelo facto de ainda faltarem dois anos para as eleições presenciais; a segunda, por deferência com o actual Presidente da República, a que Cavaco Silva chamou, de elegância para com Jorge Sampaio e a terceira porque tudo pode estar condicionado à recuperação económica do País.

N/D
15 Mar 2004

A primeira é um acto de táctica política: deixa que a vaga de fundo se forme cada vez maior e o transforme, com as maiores das tranquilidades, num candidato natural. Isto sem desgaste político de qualquer espécie que uma candidatura a longo prazo, sempre acarreta e contém.

O manto da incógnita é-lhe extraordinariamente favorável. O segundo argumento é de bom tom e serve de capa rica a este primeiro. Esta deferência de elegância para com o actual Presidente da República fica-lhe bem e, na verdade, Cavaco, fica a ganhar muito mais com este gesto de deferência para com o actual Presidente, do que ganharia se demonstrasse pressa em o substituir e ou em se mostrar.

Sem ser preciso dizer muito, ele disse a todos os portugueses, sim, eu serei, candidato, mas sem haver necessidade de atropelar, nem o tempo, nem as pessoas, nem as circunstâncias. Será Cavaco um bom candidato? Claro que é um bom candidato. E se ele for candidato votaríamos em Cavaco? Não é possível responder a esta pergunta sem sabermos e avaliarmos outros candidatos.

Ele não será, certamente candidato à Putin, candidato único, será um candidato em concorrência com outros candidatos. Depois de os conhecermos todos é que poderemos escolher um deles. Dará Cavaco um bom Presidente da República? Só pela demonstração desta hipótese se poderá responder com conhecimento. Antes disso teremos que arriscar num palpite.

Não é, no nosso entendimento, um palpite no escuro porque os portugueses conhecem-no em alguns dos seus traços de personalidade: é um homem de gabinete, bem mais avontade com os seus livros e reflexões do que com o discurso público. É um homem de estudo até ao pormenor, de reflexão até à exaustão, de ponderação das condicionantes até à resolução final.

Tornou-se, por isso, um perfeccionista, outra das suas características existenciais; estamos, assim, na presença de alguém que se refugia na excelência do estudo pela alegria do conhecimento acrescido, por gosto da demonstração da excelência dos resultados e por apetência profissional para o realismo exacto.

A sua aparente arrogância, a que uma dicção não muito bem sucedida dá sublinhado, é ainda um acto de quem se supera a si mesmo, talvez no exorcismo de alguma timidez. Podemos dizer que Cavaco é um homem de escalpelo, quer como professor, foi-o como primeiro ministro e é-o neste tempo político como candidato.

Mas há a terceira circunstância que certamente Cavaco também colocou em apreciação no conjunto das variáveis dependentes da sua candidatura: o País estará daqui a dois anos tão necessitado dum homem austero e meticuloso como Cavaco Silva? E se as condições económicas evoluírem no sentido positivo e os portugueses pretenderem um Presidente menos sisudo, menos meticuloso, menos austero e mais leve? Será Cavaco, nessa altura, o desejado ou o dispensado? Será por isso que Cavaco espera para ver? Julgamos que sim.




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