Fotografia:
O fascínio de Alexandrina de Balasar

«Quem conhece a Alexandrina fica fascinado com ela. Recebo cartas de todo o mundo com pedido de imagens e relíquias»: declarou o padre Pasquale Liberatore, recentemente falecido e que foi postulador dos Salesianos. Creio que o fez com toda a razão. Partamos então à descoberta desse fascínio.

N/D
15 Mar 2004

Veja-se este retrato psicológico que dela traçou o neurologista Dr. Gomes de Araújo, que no Hospital da Foz lhe verificou o jejum e a anúria: «A expressão de Alexandrina é viva, perfeita, afectuosa, boa e acariciadora; atitude sincera, sem pretensões, natural.
Não há nela ascetismo, nada untuoso, nem voz tímida, melíflua, rítmica; não é exaltada nem fácil a dar conselhos. Fala de modo natural, inteligente, mesmo subtil; responde sem hesitações, até com convicção, sempre em harmonia com a sua estrutura psíquica e a construção sólida de juízos bem delineados em si e pelo ambiente, mas sempre, repetimo-lo, com ar de espontânea bondade que o clima místico que desde há tempos a circunda e que, parece, não foi por ela provocado, não modificaram».

É indispensável esclarecer o contexto em que esta notável descrição surgiu. O Dr. Gomes de Araújo, que pertencia à Real Academia de Medicina de Madrid e que publicava escritos da sua especialidade, era amigo do Dr. Dias de Azevedo. Ao contrário dele, porém, não se inclinava a crer no que de extraordinário se contava sobre a Alexandrina. Embora já em Julho de 1941 – antes de ela entrar no período do jejum – a tivesse recebido em consulta e tivesse estado depois em sua casa, foi certamente só por razões de amizade entre colegas que a aceitou no Refúgio de Paralisia Infantil.

Quereria mesmo ajudar o Dr. Dias de Azevedo – «um rapaz tão inteligente», no dizer dele, Dr. Araújo – a assentar os pés mais no chão. Aliás, o padre Agostinho Veloso, jesuíta – permanente contestador de Alexandrina – teve o cuidado de o avisar de que ela era «uma aldrabona».

O retrato aparece, portanto, no final duma observação rigorosa, demoradíssima, aturadíssima, durante a qual se intentou naturalmente provar o contrário do que agora se afirma. Foi muito corajoso este médico que pôs a verdade acima dos seus preconceitos e que no fim dos quarenta dias de observações se dirigiu assim à Alexandrina e à irmã: «No mês de Outubro, terão lá em Balasar a minha visita, não como médico espião, mas como amigo que as estima».

Veja-se agora a opinião dum especialista de mística e ascética, o padre Isidoro Magunha, que por iniciativa própria viera a Balasar em 1946 e lá voltaria em 1951. Depois duma conversa de quatro horas e meia com ela, exprimiu-se assim: «Esteja sossegadinha, pode estar sossegadinha: em tudo o que me disse não encontrei em si uma palavra que seja contra o Evangelho, contra a doutrina de Santa Teresa e São João da Cruz.

Conheço a Mística e a Ascética como o pão de cada dia. Sou-lhe franco: já tenho sido escolhido para examinar destes casos e tenho sido contra; mas aqui não, sou a favor.

Viva muito humilde, viva sempre como tem vivido até aqui. Os seus sofrimentos são pedras preciosas que adornam a coroa que lhe há-de cingir a fronte. Mais tarde falarei. Pode dizer a minha opinião ao sr. Padre Humberto».

O relato destas visitas vem em Cristo Gesù in Alexandrina, pp. 387-388 e 547-548, e em Figlia del dolore, madre di amore, p. 452, embora copiado do original português.

Observe-se que o padre Isidoro Magunha era carmelita, como o haviam sido Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Era mesmo pessoa habilitada na sua área.

O padre Humberto aqui mencionado é o padre Humberto Pasquale, o segundo director da Alexandrina. Ouçamo-lo agora: «Os escritos da Alexandrina sob o aspecto teológico deixam-nos maravilhados. Por vezes têm laivos de lirismo; não apresentam correcções de espécie alguma e contam muito poucos erros de ortografia. Passam neles vibrações de poesia pura e imagens deslumbrantes; o conteúdo é denso, de excepcional poder expressivo».

Segundo esta também autorizada opinião, a Alexandrina não falha teologicamente no que escreve (antes, dita) e poeticamente é também excelente.

Deixemos por ora o padre Humberto, a que voltaremos à frente, para ouvir o testemunho de D. Gabriel de Sousa, abade do Mosteiro de Singeverga, que surgiu em Balasar já nos anos finais da Alexandrina; chegou a ser indigitado para uma comissão que pretendia estudá-la dos pontos de vista médico e teo-lógico, o que acabou por não acontecer devido ao agravamento do estado físico da doente.

Este testemunho, que tomámos a liberdade de dispor em verso livre, é perpassado também de um tom altamente elogioso: «Às vezes, de visita a lugares célebres, / trago entre as folhas do canhenho / a pétala duma flor; / ela seca, perde o aroma, / e só fica a valorizá-la a data que se lhe inscreve. / Fui a Balasar um dia. Voltei uma segunda vez. / E também trouxe de lá, / entre as folhas do Livro de Horas de minha pobre vida, / uma pétala de lembrança. / Mas essa ainda não murchou, / ainda não perdeu o aroma: / a visão duma alma angelical, / através duns olhos de pureza, / como nesta derrancada terra se não encontram. / E, do Calvário da Alexandrina Costa, / foi esta a dolorosa e imaculada lembrança / que me ficou».

Dois livros italianos – Figlia del dolore, madre di amore e Anima pura, cuore di fuoco – e um portu-guês – Alexandrina de Balasar – tomam este pequeno escrito para a sua abertura.
No livrinho O que dizem da Alexandrina, Gabriel Bosco (pseudónimo do padre Ismael de Matos) regista esta opinião do padre Humberto Pasquale: «No entanto, se realmente quer que eu sintetize, numa só palavra, aquilo que nela era mais convincente e a fazia aparecer aos nossos olhos como alma extraordinária, dir-lhe-ei que era a sua bondade. Ela era “a bondade em pessoa”. Era esta bondade que imediatamente nos levava a pensar em Deus e dava à Alexandrina a auréola de “alma extraordinária”».




Notícias relacionadas


Scroll Up