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El día de la infamia

“O dia da infâmia” é um título assaz adequado para designar o 11 de Março de 2004. O diário “El Mundo” fez, portanto, bem em colocá-lo a toda a largura da sua primeira página do dia 12. O resto do jornal, à semelhança do que fizeram os outros jornais espanhóis, dedicava ao acontecimento a maioria das suas páginas. Invulgar, absolutamente invulgar, foi a opção editorial de incluir poemas e artigos designadamente de alguns dos mais interessantes autores da literatura espanhola contemporânea.

N/D
14 Mar 2004

O diário “El Correo Gallego” julgou mais pertinente escolher para a primeira página a pergunta “ETA ou Al Qaeda?” (o diário francês “Le Monde” fez também manchete com a questão). A questão tem alimentado uma grande parte dos debates que nos canais televisivos portugueses se têm realizado. De um modo geral, tem havido nessas discussões uma significativa tendência para o lugar-comum ou para o disparate. Um número não despiciendo de comentadores portugueses tem-se contentado em papaguear as duas ou três frases que leram nalgum fórum de discussão on-line ou escutaram nalgum outro programa radiofónico ou televisivo. A propagação de estereótipos e asneiras faz-se assim a uma assinalável velocidade.
De repente, as vítimas, os mortos, os feridos e os seus familiares e amigos, são um mero e abusivo pretexto para ociosas divagações sobre explosivos, rastilhos ou detonadores. Muitos dos nossos analistas (não apenas os nossos, evidentemente) falam sobre a autoria dos atentados como quem discorre sobre os efeitos especiais do último filme do 007. Alguns vão um pouco mais longe e conseguem encontrar uma ou outra razão para justificar o terror. Para estes, uma decisão de um primeiro-ministro (a de Aznar que resolveu aliar-se aos Estados Unidos da América na guerra do Iraque) ou a miséria do mundo tornam compreensível a morte de 199 inocentes.

Um criminoso é um criminoso e ponto final. Sejam os etarras – esses “jovens educados no fanatismo étnico, no ódio a mais de metade dos seus concidadãos e a tudo o que é considerado ‘espanhol’, jovens a quem se imbuiu uma história distorcida e uma antropologia demencial que faz com que se julguem vítimas e se convertam em verdugos”, para citar Fernando Savater – sejam os anacrónicos fanáticos islâmicos.

Não há etarras nem fanáticos islâmicos, há apenas assassinos, “assassinos de razões e vidas”, como referiu o cantor Lluis Llach no jornal “El Mundo” de sexta-feira num texto que terminava assim: “Uma passagem da minha canção Campanadas a muertos diz:

‘Assassinos de razões e vidas
que nunca encontreis repouso
em nenhum dos vossos dias
e que na morte
vos persiga sempre
a nossa memória’.
Escrevi-a no ano de 1976, depois de um atentado em Vitoria. Recordo-a, por desgraça, hoje”.

Sobre esses “assassinos de razões e vidas”, falava também um poema de Bernardo Atxaga publicado na mesma edição do jornal.

“A vida é a vida

A vida é a vida,
e não os seus resultados.
Não a casa grande
no alto da montanha,
nem as coroas e medalhas
(áureas ou de imitação)
que ocupam as estantes.
Não é só isso a vida.
A vida é a vida,
e isso é o mais importante;
aquele que a tira,
tira tudo.
Não as grandes viagens
a terras e cidades longínquas,
nem as estranhas gentes
(melhor ou pior fotografadas)
que ali encontramos.
Não é só isso a vida.
A vida é a vida.
E isso é o mais importante;
aquele que a tira,
tira tudo.
Não a chuva sobre o telhado,
nem o granizo na janela,
nem a neve, nem a lua,
nem sequer mesmo a luz
(tão maravilhosa).
Não é só isso a vida.
A vida é a vida.
E isso é o mais importante;
aquele que a tira,
tira tudo.
Não essa mulher ou esse homem
que nos sussurra ao ouvido,
tampouco os pais ou os filhos,
os irmãos ou os amigos
(de agora e de sempre).
Não é só isso a vida.
A vida é a vida.
E isso é o mais importante;
aquele que a tira,
tira tudo.”

Tudo.




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