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Niilismo ou transcendência?

Cada vez mais a televisão é centro de atracção das pessoas, por diversos motivos, não só recreativos, mas também formativos e de debates em várias áreas, nomeadamente de natureza económica, política ou social.

N/D
13 Mar 2004

E o tema religioso é abordado, embora ao de leve, no meio de qualquer um deles. E as respostas podem realmente situar-se em dois grupos de pessoas: crentes, mais ou menos praticantes, e pessoas com uma visão puramente materialista, no sentido de que o homem é fundamentalmente um ser que acabará no niilismo do túmulo.
– “O senhor tem fé? Acredita em Deus e no transcendente?”
Foi, mais ou menos, por estas palavras que uma jornalista interrogou, há dias, um interlocutor. A sua resposta foi:
– “Quando se entra na terceira idade, sabemos que o nosso fim pode estar perto. E o que vem a seguir? O nada.”

Este diálogo fez-me pensar noutro, com pequena diferença de dias:
– “O senhor acredita em Deus?
– Ora, por que não havia de acreditar? Sem Deus não há explicação para nada…
– E é praticante?
– Cumpro conforme me é possível. Às vezes com alguns defeitos…”

E as perguntas são feitas, em muitos casos, com uma visão negativa. Pretende-se obter uma resposta que esteja de harmonia com a falta de valores, sobretudo de natureza espiritual. E assim alguém com autoridade ou importância no mundo da comunicação social viria “justificar” a indolência ou falta de apetência desse jornalista e, por uma transmissão em cadeia, de muitas outras pessoas que são ouvintes atentos do programa televisivo.

Esta atitude é semelhante à de alguém que pretende que outros aprovem uma conduta errada da vida.

Claro, também há o oposto: a daqueles que interrogam outrem de quem esperam uma resposta afirmativa e procuram sublinhá-la como um modelo a seguir. Infelizmente, são poucos os que se situam neste âmbito.

Vem a propósito este tema neste tempo que nos conduz e prepara para celebrar, mais uma vez, a Páscoa da Ressurreição do Senhor. É bom ter presente o sentido escatológico da vida, pois, como diz o Concílio Vaticano II, na Constituição pastoral, “A igreja no mundo actual”, n.º 11: “a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas”.

Cristo, no tribunal de Pilatos, que o havia de condenar à morte, afirmou que veio ao mundo para dar testemunho da Verdade. E a Verdade que Ele ensinou admite clara e expressamente, das mais varia-das formas, tempos e lugares, a existência de uma vida para além da morte. E sobretudo ensinou que, com Ele, o ser humano há-de ressuscitar, “na sua própria carne” há-de ver a Deus.
E é esta verdade que, como coluna dorsal, atravessa os tempos, os milénios, e transcende os lugares onde existam qualquer homem ou mulher, criança, jovem ou adulto.

Tem razão a autoridade eclesiástica quando no citado documento afirma, no n.º 18: “O germe da eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria insurge-se contra a morte… a fé cristã ensina, além disso, que a morte corporal será vencida, quando o homem for pelo omnipotente e misericordioso Salvador restituído à salvação que por sua culpa perdera… esta vitória alcançou-a Cristo ressuscitado, libertando o homem da morte com a própria morte”.

É, sobretudo, esta luz que vitaliza a confiança do ser humano no meio dum mundo tão confuso e cheio de problemas e violências. A crença na transcendência e sobrevivência do espírito humano ajuda a compreender o “mistério da cruz” da humanidade, a ter uma visão mais alegre da religião e da vida.

E a comprometer-se com um mundo mais humano e fraterno, onde não haja excluídos, se curem feridas e se criem melhores condições de vida, habitação, saúde e bem-estar.




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