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A necessidade aguça o engenho

Anne Perrottet é uma senhora australiana, mãe de uma família numerosa – nove filhos – e tem uma preocupação que actualmente está a entrar em desuso. Quer preservar a conversa familiar durante as refeições, um modo de pais e filhos dialogarem e porem em comum os problemas familiares.

N/D
13 Mar 2004

Temos de concordar que com nove filhos à mesa, em idades muito variáveis, a tarefa não é fácil, mas Anne fez várias tentativas e confessa que algumas foram um rotundo fracasso. Quer o marido quer ela não gostam de barulho o que é praticamente impossível de conseguir numa família tão numerosa e sobretudo com crianças normais e portanto irrequietas e faladoras.
Anne tem um lema para conseguir o que quer: que tenham a cabeça ocupada e a boca cheia. Como conseguir? Optou por fazer as refeições em dois turnos. Senta-se a comer com os mais pequenos e deixa que cada um fale dos seus problemas desse dia e para haver ordem promete (e cumpre) brindá-los com uma boa sobremesa. Deste modo não atiram a comida para o chão, nem fazem grande barulho. Para ajudar os mais pequenos a portar-se bem, sem se querer levantar ou para não se recusarem a comer, vai-os entretendo com perguntas de geografia ou de qualquer outra matéria. Além do mais tem um valor educativo e não os deixa falar com a boca cheia ou queixar-se da comida.

Quando estão cansados da geografia mudam de tema. Usa então o estratagema de os obrigar a falar nas línguas estrangeiras que aprendem no colégio. Se querem qualquer coisa tem de a pedir na língua que estão a usar no momento; além de enriquecerem o vocabulário, tudo adquire um aspecto lúdico.

Com estas tácticas as crianças vão aprendendo coisas sem dar por isso, como por exemplo as capitais de países exóticos ou o nome dos objectos de uso corrente noutra língua que não o inglês.
Anne confessa que muitas vezes sente a nostalgia de ter uma refeição só com o marido, à romântica luz das velas, longe dos pequenos. Isso passa-lhe depressa pois tem de pensar no segundo turno da refeição com os mais velhos e o marido, mas que, na táctica, pouco difere da anterior.

Cada um conta o que se passou no seu dia e como regra os outros devem escutar atentamente ou pelo menos calados. Aí entra o pai e a mãe o que convenhamos ser muito educativo; assim os mais velhos partilham os problemas familiares, quer sejam sobre coisas agradáveis, quer coisas penosas.
Numa dada altura a hora do jantar coincidia com a hora do telejornal; concordaram em cancelar o telejornal e jantar sossegados. Mas é um facto que os pequenos deviam andar informados do que se passa na actualidade e então Anne tomou uma decisão: recortar artigos interessantes para lhes dar sempre que estivessem de faxina na cozinha, sim, porque na família todos ajudavam e a mãe não era a única sacrificada. Isso veio melhorar a memória, a capacidade de compreensão e expressão e alimentar um diálogo construtivo e educativo.

Como os afazeres são muitos os filhos começaram a encarregar-se de escolher os artigos que serviriam para o debate. Como não é muito fácil com nove filhos estar com cada um, todos participam na conversa.

A isto chama-se um jantar bem organizado. Se todos falassem ao mesmo tempo, ninguém se entendia e a discussão estalava. Assim têm uma verdadeira conversa em família.

Nessas conversas aparecem as opiniões e pensamentos dos filhos e os pais podem assim, sem retórica, aconselhar e assegurar as suas crenças e valores.




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