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A formação pelo turismo religioso…

As diversas linguagens e formas de arte contemporânea, por vezes com escopos de arte pela arte, constituem pela criação e criatividade, o aspecto da expressão de linguagem do individual subjectivo inefável e indizível, nos seus diversos meios e modos, o código do objectivo mais sensível do mundo e do homem de hoje: mostram a passagem do invisível, numa concepção mais subjectiva, ao visível objectivado.

N/D
13 Mar 2004

O artista, pela sua autenticidade pessoal, exprime-se na sua obra, embora certas formas de arte moderna tornaram-se de tal maneira esotéricas, surrealistas e herméticas que chegam à marginalização do artista. A obra valerá mais como produto do que pelo seu autor, o qual desaparece como a aranha na sua teia. Mas deverá ser só assim?
Este facto, no desenvolvimento da arte sacra e na sua relação com a Igreja, cria, por vezes, tensão, pelo que existem relações reservadas, porque ela não pode fazer de outra maneira senão procurar as formas artísticas que traduzam a bondade de Deus criadora da beleza do homem. A Capela Sixtina o documenta de forma exuberante no seu realismo impressionista.

Que é o belo, interrogava um amigo de Chopin, Cipriano Norwid . “A sua forma é o amor. A beleza é a forma que o amor dá às coisas”, responde Ernest Hello. Onde há obra, está o amor. Mas que amor?

Estamos pois longe da “arte pela arte”que não remete para o seu autor, e se cria a si mesma, ou se consome em autofagia ou autoflagelação. Não será este o motivo de tanta literatura de cloaca e de tanta beleza “estética”, mesmo na pintura, a imagem sem estética nenhuma? Consciente deste afastamento, Paulo VI, após o Vat. II , dirigindo-se aos artistas, disse: “Hoje como ontem, a Igreja precisa de vós e volta-se para vós. O mundo no qual vivemos tem necessidade da Beleza para não cair na sombra do desespero”.

Daí ter surgido um museu de arte religiosa moderna no Vaticano, com quadros dos mais celebres pintores modernos: Braque, Chagall, Dali, Modigliani, Picasso, etc. Um deles ao oferecer a sua tapeçaria, escreveu: “A pintura é uma das formas onde se manifesta o espírito, num mundo cada vez mais materialista”.

Estas considerações , na sequência de outras, vão ao encontro do homem contemporâneo, profundamente marcado pela imagem: a televisão, o cinema, a publicidade são consumidores de imagens e apelam os autores e realizadores a uma criatividade renovada. Mas como encontrar nelas fontes de inspiração portadoras de alegria e de esperança?

É certo que muitos filmes de hoje, em linguagem atrevida, macabra ou de horror, põem-nos perante lancinantes problemas humanos. Parece mesmo assistirmos a um cataclismo e invasão de sentimentos contraditórios, onde a violência desperta sentimentos de ternura, a força cega e bruta, mesmo instintiva e animal, é muitas vezes veiculadora de outras mensagens em ondas subliminares, portadoras de esperança. Mas nem sempre o expectador é capaz de as perceber, na panóplia e polissemia de sentidos, ficando-se nas que entram no imediato ou da sua pobre experiência humana, noética, imediata ou vivencial.

Não precisaríamos de novos códigos, educação de novas sensibilidades, mesmo outros realizadores, a despertar para novos conteúdos, ou a descobrir as riquezas do património colectivo? Vinte séculos de cultura cristã – diz Poupard – não nos legaram um escrínio extraordinário de imagens e de beleza?

Porquê então uma certa relutância em renegar esse património, ou pouca vontade de o descobrir ou revisitar? E a música? E a beleza das catedrais? A sua policromia, vitrais, cenas bíblicas e motivos religiosos, por vezes escondidos, mas de uma riqueza simbólica incalculável?

Não seremos capazes de uma nova catequese e nova sensibilidade, a partir da beleza da arte, mas conduzida por guias bem preparados, que mostrassem a arte das igrejas, a história dos santuários, aos cristãos e até não-cristãos, que aí vão habitualmente, mas tudo desconhecem mesmo da vida cristã ou dos santos, ainda que vergados em sacrifícios?

Seriam necessários bons guias e brochuras bem feitas, mesmo nas principais línguas, onde o essencial fosse explicado, como as características da obra de arte.

Hoje mais que nunca será a grande aposta na catequese do turismo religioso, como saber deixar marcas, que traduzam em arte e símbolo os verdadeiros sinais de uma passagem, ainda que efémera.

Mãos à obra!…




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