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O cauteleiro

Duas características costumam acompanhar a vida do cauteleiro: a simplicidade e a simpatia.

N/D
12 Mar 2004

Como criatura simples, o cauteleiro é um homem a quem a vida faz negaças; como homem simpático, o cauteleiro é uma pessoa querida e estimada de toda a gente.
O cauteleiro, por um lado, é um homem sem sorte, que passa a vida a dar sorte aos outros; por outro, é um homem que dá a feliz terminação e que, no fim da vida, termina em situação desafortunada.

Assim, podemos dizer que o cauteleiro é uma pessoa que dá aos outros aquilo de que precisa.
Toda a gente procura a sorte, segundo a maneira como a concebe.

Ordinariamente, quando se fala em sorte, trata-se da felicidade e do bem estar vivido nesta vida, embora algumas vezes suceda que a desgraça do presente alerta e gera o sucesso do futuro e, noutras oca-siões, o sucesso do presente cega e origina a desgraça futura.

A sorte, ordinariamente, só nos bate à porta uma ou duas vezes na vida.

Quando isso sucede, temos de a acolher; caso contrário, no futuro, pode passar ao lado.
A sorte, de si, é fortuita; todavia, deve-se procurar, quiçá, construí-la.

Para uns, a sorte está no número e no signo; para outros, no trabalho e no negócio. Para poucos, está associada à moral da vida.

Há homens que têm pouca sorte na vida; outros são, como diz o nosso povo, uns «burrinhos carregados de sorte».

É necessário, por isso, aproveitar todas as ocasiões de ser feliz.

– Há horas felizes!… Há horas felizes!…, já pregoava, em voz temida e grave, no Bom Jesus do Monte, um conhecido cauteleiro, no meu tempo de estudante.

Ele lá sabia o que dizia e por que o dizia.

– Fala-se muito na roda da sorte.

Como as horas do relógio, a vida de uma pessoa também anda à roda e circula por muitas situações temporais, qual delas a menos complicada.

Muitas vezes, a sorte da vida pode vir numa cautela; mas, nestas coisas de jogo, toda a cautela é pouca.

– É que há cautela e… cautela!…

Isto é, com a cautela, pode vir a sorte do jogo; sem cautela, pode-se ir a sorte da vida.

A sorte não se dá, não se empresta, nem se vende.

Se se dá, ficamos sem ela; se se empresta, pode voltar ou não voltar; se se vende, por melhor que seja a venda, não compensa o infortúnio que a falta dela provoca.

Por isso, a sorte acaricia-se e guarda-se o mais tempo possível, nos escaninhos do nosso guarda-jóias.

Embora seja muito difícil saber onde a sorte se encontra, parece-me, contudo, que não há ninguém que não tenha um momento de sorte.

– Os cauteleiros podiam utilizar apenas a simpatia comercial, que anda aliada à venda do jogo da sorte.

Mas… não!… São pessoas extremamente simpáticas, honestas e prestáveis, nos mais diversos aspectos da vida.

Denotam determinadas características pessoais e, por isso, quase todos são figuras típicas e populares, espalhadas pelas vilas e cidades do país.

Infelizmente, é mais uma castiça personagem que está em vias de extinção.

Com ele, lá se vai mais um pregão das ruas e cafés de Portugal.




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