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Desejou a morte por estar já cansado da vida

Nasceu na terra da Maria da Fonte. Talvez por isso, como ela, nunca foi um homem conformado ou acomodado, bem pelo contrário. Inteligente, e bem por dentro dos problemas políticos, esperava, a todo o momento, o estrondoso estouro do caduco e bafioso regime que começou a acelerar a sua queda, já a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

N/D
12 Mar 2004

Viveu um dos momentos mais felizes da sua vida com a inebriante e harmoniosa canção “Vila morena” de Zeca Afonso, na madrugada do 25 de Abril de 1974. Tal emoção vem bem espelhada nos seus textos de opinião que passam, agora sem censura, a acompanhar os avanços e recuos da revolução dos cravos vermelhos.
A carta enviada a seu filho, em 26/04/74, retrata bem o estado de uma alma a transbordar de alegria e esperança: «Guilherme […], o futuro dirá se o caminho que o país vai seguir será positivo e ascendente. Tenho esperanças. Sinto grande alegria por ter atingido com vida o fim do túnel em que me encontrei já […]. Cheguei a supor nunca ver o sol da liberdade. Aqui o entusiasmo é grande».

Numa outra carta enviada, em 4 de Maio do mesmo ano, reforça o seu contentamento: «Ainda ando estonteado com tudo que se passou no país […]. A euforia ultrapassa tudo o que seria possível.

Estão a vir à superfície as imensas porcarias escondidas. Foi o autêntico destapar duma fossa.

Aguardo com ansiedade o resultado do desenvolvimento do processo. Votos para que decorra até ao fim dentro das premissas estabelecidas…». Homem de carácter íntegro e de fortes convicções escolheu, por lhe parecer esse o melhor caminho, a ideologia marxista-leninista, à qual se manteve fiel, sem tibiezas, até à hora do fim da vida. Acreditava que só a apropriação colectiva dos meios de produção, o Estado-patrão em suma, tornaria mais iguais em direitos, e por isso mais felizes, todos os homens que considerava irmãos. E é com amargura e desilusão que assiste, já no fim da década de oitenta, ao esfarelar de um sonho vivido por grandes elites intelectuais.

Talvez por isso, no último postal enviado ao filho que estava ou havia estado em Armação de Pêra, datado de 05/09/98, já abalado psicologicamente, referia: «sinto-me um velho louco no limite da vida.

Já nem sequer saio de casa à espera que a Parca me leve, ideia que aliás não me incomoda, antes me alivia. Já vivi muito e já me sinto cansado […], sentindo que o fim será um alívio e não um sofrimento…». Como homem de esquerda, não acreditava na imortalidade da alma, mas sim que à morte sucediam outras formas de vida. Por iniciativa do filho, e em homenagem à memória do pai, acaba de ser publicada toda a sua vasta obra, em dois espessos volumes, onde transparece a cada página a sua profunda preocupação com as vítimas de um regime que só protegia os mais fortes.

“Palavras escritas – Combate de ideias – Luta por Ideias” é uma obra que merece bem ser analisada e meditada por todos quantos, independentemente das suas ideologias ou crenças religiosas, perfilhem o Humanismo, cujos princípios ligados ao Renascimento Manuel de Matos Fonseca comungou desde a primeira hora. Pois aqui começa a libertação do homem que passa a ser o centro do mundo e o bem da humanidade – a causa final do resto das coisas. Bem-haja o Guilherme por tal iniciativa.

Com ele cruzei nos primeiros anos da década de sessenta, não poucas vezes na via latina da Universidade de Coimbra, onde se afirmou como bom colega e aluno distinto. Mais tarde segue a carreira da magistratura e ascende ao topo da carreira, jubilando-se como Juiz do Tribunal Constitucional. Partilhem-se ou não das suas ideias políticas, o certo é que todos os de boa fé, e que com ele tenham convivido, têm forçosamente de reconhecer que o agora homenageado correra a vida inteira travando incansavelmente o seu combate na defesa da melhor política social em favor dos mais fracos, por onde passava o pleno emprego, salário justo e garantias de uma sólida segurança social.

Mas quem melhor do que José Manuel Mendes que, no prefácio, nos retrata, numa prosa ágil, desembaraçada e fluente a multifacetada personalidade do nosso Engenheiro Matos Fonseca.

Também foi um lutador através dos seus escritos na defesa desta histórica cidade. Ainda há dias Costa Guimarães, director do Correio do Minho, me dizia com entusiasmo e uma certa carga de emoção que o Engenheiro Fonseca há mais de trinta anos defendia que Braga devia correr a caminho do Cávado. Parecia adivinhar já que os vales verdejantes a Nascente e Sul iriam dar lugar ao camartelo do progresso. Participou na polémica à volta da iniciativa de obras de vulto a começar pelo local do Palácio de Justiça, demolição da igreja de São Lázaro, alargamento da rua Francisco Sanches.

Criticou severamente os parques de estacionamento subterrâneos, a construírem dentro da cidade, numa carta dirigida ao Correio do Minho, onde se queixava também que lhe fora negada aí a sua colaboração que mantivera durante largos anos, talvez por mexer com interesses instalados. Antes do 25 de Abril lutou com as armas que mais se harmonizavam com a sua maneira de ser – homem de paz e concórdia, hostil à violência.

Assim não se pode dizer de Matos Fonseca que tenha andado com a PIDE a correr atrás de si. Por isso, não tinha, como muitos dos seus pares, um passado anti-fascista. Contudo, afrontava o poder dentro dos possíveis limites. Assim não deixou de participar, em Abril de 1973, no terceiro Congresso da Oposição Democrática de Aveiro, apresentando uma comunicação. Congresso onde também estive eu, juntamente com José Ferreira Salgado, Francisco Tinoco de Faria e Humberto Soeiro.

Por todas as razões se justifica este meu texto. Mas sobretudo também por através da minha carreira profissional ter contactado com o Engenheiro Fonseca, não poucas vezes, na Direcção de Estradas do Distrito de Braga. Mais tarde, já vereador da Câmara Municipal, por ele fui ajudado a resolver um problema relacionado com um investimento próprio.

Na hora da despedida, 25 de Abril de 1999 (Não podia a morte escolher melhor dia para o subtrair ao mundo dos vivos), estive presente. E agora na homenagem à sua memória, também não podia faltar.




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