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Acerca do Alto Douro “vinhateiro”

1Um presente envenenado e um logro ecológicoNuma primeira leitura, apressada, todos ficámos satisfeitos quando há cerca de 2 anos a vasta região do Alto Douro foi elevada à invejável qualidade de “património mundial”, pelas instâncias competentes das Nações Unidas.

N/D
12 Mar 2004

Numa segunda leitura, mais atenta, pusémo-nos contudo a reparar que a seguir ao nome da região “Alto Douro” aparecia um algo suspeito (tão suspeito quão exclusivista) adjectivo, “vinhateiro”. E pusémo-nos logo a procurar adivinhar o que é que esta consagração internacional quereria realmente privilegiar, se a imponência da orografia e monumentalidade das paisagens, se a quantidade e qualidade da sua principal produção agrícola, o vinho, na dupla vertente “vinho do Porto” e “vinho de mesa”. E infelizmente parece que se quer privilegiar apenas a segunda componente, a de esta região ser de agricultura vinícola intensiva.

2. Influência das grandes companhias exportadoras
Ora ao que se vem assistindo desde então, é a uma intensificação do desbravamento das últimas áreas de mato, ou até de montado de sobro, de toda aquela vasta área. Logo no Verão de 2002 a “inocente” reposição do comboio a carvão na linha do Pinhão (a leste da Régua) levou a vários incêndios de grande dimensão, que afectaram encostas inteiras, junto ao Douro.

Depois disso (e penso eu que a propósito daquele, aqui maligno, adjectivo, “vinhateiro”) tem acontecido o aumento notório da área cultivada, um pouco por toda a parte. E à custa, como disse atrás, dos últimos espaços naturais da região, quer se trate de veneráveis sobreirais e carrascais seculares, quer de espectaculares penhascos e fraguedos que ali repousavam há milhões de anos (os quais, penso eu, que Deus ali pôs, em primeiro lugar para se regozijar a Si próprio e que não deixará passar sem forte castigo a sua grotesca destruição sistemática…).

3. Hoje, por todo o país se destroem as fragas
Ao contrário do que acontecia no passado, os agricultores e empreiteiros portugueses possuem agora maquinaria capaz de facilmente revolver a terra e de escavar todos os penedos que Deus tão prazeirosamente semeou pelas montanhas e pelos planaltos do “hinterland” nacional, desde Trás-os-Montes à Beira Alta, desde o Alto Alentejo às serranias do Algarve.

Essa maquinaria é cara e esses bárbaros nossos contemporâneos sentem-se no direito de a fazer render de qualquer modo. Ainda que depredando para sempre uma paisagem protegida ou um parque natural (quanto mais se o penedo nem sequer ficar em zona classificada…).

Para isto contribui também a irresponsável e ignorante apetência de muitos citadinos com posses, que desejam construir prédios ou vivendas com “materiais nobres”… mas que os mandam roubar à Natureza, de forma absolutamente nada nobre, ignóbil. Eu próprio já consagrei a este momentoso assunto (para o qual os nossos conterrâneos urbícolas ainda não foram devidamente despertos) um artigo no Diário do Minho, de 11/03/2003, intitulado “Da sacralidade das pedras (e do seu fim)”. E aqui reitero que, se os meus trabalhos alguma vez contribuirem decisivamente para que os meus conterrâneos passem de uma vez por todas a respeitar as pedras, os animais e as árvores, sentirei que boa parte da minha missão na comunicação social estará cumprida.

Mas voltando ainda uma vez à nova maquinaria que ao lavrar destrói as próprias pedras, lembremos outro fenómeno recente: o de, por causa da necessidade de proteger os arvoredos contra os fogos-postos, se usarem essas máquinas para cortar os arbustos e o mato à volta das árvores. E então as máquinas levam os arbustos… e levam as pedras.

4. Uma paisagem “penteada”
O resultado do advento da nova maquinaria é que hoje é bem mais fácil fazer socalcos nas encostas dos montes, nem que seja para plantar miseráveis eucaliptos ou hirtos cedros de Bussaco. E o Alto Douro está cada vez mais a ser vítima disso. A destruição das pedras avança até já pelo Tua e Tinhela acima, visando Murça e Mirandela. Outrora, antes da mecanização, os já então abundantes socalcos eram uma marca distintiva da paisagem alto-duriense.

Sobretudo porque se encaixavam num belíssimo mosaico natural, onde ainda predominavam as partes com sobreiros e carrascos e as fragas. Como não seria belo o Douro antes das alterações introduzidas pelo Marquês de Pombal! Soberba floresta de pinheiro, sobreiro, carrasco, carvalho e zimbro, forrando os precipícios e gargantas dum interminável curso de água, virgem, que as barragens haveriam de estuprar mais tarde. Fundo vale serpenteado onde desaguavam todos os fundos barrancos boscosos ou pétreos de Trás-os-Montes e da Beira Alta. Refúgio de corços, de javalis, de ursos, de esquilos, de águias e de mochos, terra de fronteira entre cristãos e mouros, entre portugueses e marroquinos. Fronteira natural que fazia os nossos avós cristãos chamar à serra acima de Lamego, Resende e Cinfães, o Montemuro, o “monte dos mouros”.

Hoje, quase tudo está destruído. De Mesão Frio até para lá da Foz Coa, a paisagem é cada vez mais “humanizada”, mais artificial. Tudo são riscas regulares dos socalcos, a paisagem parece “penteada”, desapareceram quase todos os penedos. Por outro lado, a esta paisagem “penteada” sobrepõe-se outra, a do arvoredo “ponteado” por oliveiras e amendoeiras, que infelizmente, por razões de gestão agrícola, os lavradores costumam plantar às carreiras, em pontinhos para quem vê ao longe… Predomina um sentido economicista, geométrico, anti-natural, tão desagradável ao observador com gosto pela verdadeira Natureza. É que esta é tal qual como a verdadeira Arte: encanta pela irregularidade, surpresa, variedade e imprevisibilidade.

5. A crise da Casa do Douro
Com todo este “esplendor mundialista”, globalizante, neo-liberal, do galardão alcançado (“património da Humanidade”) contrasta a forte crise político-financeira da Casa do Douro. E também as dificuldades económicas e o intenso trabalho do pequeno lavrador alto-duriense, seja ele empresário ou empregado. Outras novidades são o aproveitamento (destruidor) das últimas áreas da Região Demarcada, inclusive Murça. E o aparecimento, aqui e acolá, dos primeiros imigrantes ucranianos, aliás bem-vindos.

6. Exportações e campanhas contra o álcool
Na nossa maneira de ser de portugueses, sempre algo superficiais e pouco reflectidos, comprazemo-nos com a perspectiva imediatista do aumento das exportações do vinho de boa qualidade, duriense ou alentejano. Porque «gera mais receitas», diz-se. Esquece-se é que esta sobreprodução é feita à custa da Natureza e das grandiosas paisagens durienses. Esquece-se também que, para competir, somos obrigados a exportar os melhores vinhos, havendo tendência a deixarem-nos os “martelados”, prejudiciais à saúde.

E é de lembrar também que esta intensificação da exploração vitivinícola do Alto Douro, há dois anos, contrastou fortemente, na altura em que foi lançada, com as hipócritas investidas contra o vinho e a própria cerveja de certos políticos de características venusianas ou marcianas ou “severianas”, descidos à Terra para legislarem sobre a vida privada das pessoas. Sendo certo até que estes “ácidos” seres galácticos, que trabalham com outros “combustíveis”, oram e laboram na mais estupefaciente ignorância dos vetustos costumes de todas as greis do norte do Mediterrâneo; e das do resto da Europa, em geral.




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