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O «doutor da mula ruça»

Soldado raso que sou, em matéria de letras e ciências, jamais entrei em altas cavalarias de intelectualidade, nos escritos que dia a dia vou fazendo.

N/D
11 Mar 2004

Para tanto, mesmo que não me faltasse o jeito, minguava-me o saber e a arte.
Por isso, aos arroubos intelectuais e à profundeza do conceito filosófico, sempre preferi o chão raso da conversa popular e o “tu lá, tu cá” do linguajar quotidiano.

Nada perdi com o facto e ainda fico com o lucro de não ter abusado da paciência dos meus devotados leitores.

Serve este intróito, à laia de preâmbulo, para introduzir e justificar o assunto que hoje vou tratar.

Desde menino que na aldeia ouço chamar, umas vezes em jeito de troça, outras, em estilo de provocação, “doutor da mula ruça” a qualquer chico-esperto, armado em sabido.

Há dias ouvi, mais uma vez, o referido aforismo aplicado a um engraçadinho que, com dez réis de verniz cultural, já se julgava com direito a um prémio nobel, talvez, de qualquer associação sediada no café ao lado.

Esta circunstância aguçou-me a curiosidade de encontrar a razão explicativa que justificasse o uso, quer do título, quer da cor do animal, em tão interessante veredicto popular.

Por um lado, trata-se de um popular e irónico doutoramento “honoris causa” que, não sei por que bulas e, muito menos, por que decreto, a universidade popular resolveu atribuir.

Por outro lado, é chamada à causa do doutoramento uma mula que, não sei como nem por quê, tem de ser de cor arruçada.

Confesso a minha ignorância, mas a verdade é que no momento ignoro onde o povo foi buscar a “mula ruça”.

Se foi para completar a ironia e empolar as qualidades do sujeito do doutoramento, podia-se arranjar um cavalo que, assim como burros, também por cá os há e bem afidalgados.

A “mula” certamente foi buscar à cor a importância adquirida no estribilho pois, no meio de tanta cavalgadura, havia outras animalidades talvez mais adestradas ao transporte do doutor.

Mas o aforismo fala na “mula ruça” e, por isso, temos de aceitar o veredicto tal e qual como é proferido.

Creio que a razão justificativa da “mula ruça” não se encontra nas alimárias cavalgadas por D. Quixote e Sancho Pança.

O primeiro, conforme a sua condição, montava um cavalo rocinante e o segundo, dada a sua servidão, trauteava uma azémola feia e atarracada como ele.

Também não me parece que a origem da “mula ruça” se encontre na burrica do João Semana, embora tudo indique que o doutor referido na frase tem todo o jeito de ser também um médico de aldeia. O uso da “mula” assim o parece indicar.

Foi já há tempos que li o romance de Júlio Dinis e, no momento, não me recorda da cor atribuída ao prestável animalejo, nem de que essa atribuição tenha sido feita.

Ignoro, ainda, que a origem da “mula ruça” se encontre sobre as ilhargas das antigas malas-postas, que transportavam as missivas das Julietas que, para lá das serras, suspiravam amores pelos Romeus levados no comboio, após as “sortes”, “para a vida militar…para aquela triste vida'”!..

Contudo parece-me que, com tantos postos de trabalho criados na ocasião, toda a jericada ainda devia ser pouca, para se darem ao luxo de escolher só “mulas ruças” para o efeito.

Assim sendo e não me recordando de ter lido, falado ou estudado mais qualquer coisa onde se fale de alguma “mula ruça” fico na expectativa de um dia poder decifrar o mistério.

– Mas… um homem também não pode saber tudo!…




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