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Memórias de um tempo em que o dinheiro não prestava

Morrer de fome, sem dinheiro, admite-se, mas morrer de fome, com dinheiro, é inacreditável, protestava um operário bracarense em 1891

N/D
10 Mar 2004

Não adianta os antropólogos ou mesmo os historiadores admitirem que o homem do paleolítico, embora condicionado pela generosidade da natureza, gastaria em média cerca de quatro horas por dia para assegurar a sua sobrevivência1, permitindo-se, por consequência, ao gozo de amplos períodos de lazer no quotidiano.
Hoje, a satisfação ou a felicidade assenta, sobretudo nas sociedades com matriz cultural ocidental mas também um pouco por todo o mundo, substancialmente na vertente económica. “Ter ou não ter”, mais do que a célebre questão shakespeariana do “ser ou não ser”, parece consubstanciar o caminho para a realização da generalidade dos sonhos individuais e, por isso, aquilo que poderia transformar-se eventualmente em tempo livre é transformado, com sobrecarga de stress, em período de trabalho capaz de proporcionar um aumento da capacidade de consumo.

Acedamos, porém, que, embora seja comum enfatizar-se o homo oeconomicus como um fenómeno essencialmente contemporâneo, convém relativizar esta perspectiva – bastará para tal reter que há cerca de dois mil anos Judas denunciou Cristo por trinta moedas e que, por 1527, no Auto da Feira, Gil Vicente, denunciando a corrupção material dos espíritos do tempo, afirmava que toda a glória de viver das gentes é ter dinheiro, e quem muito quiser ter cumpre-lhe de ser primeiro o mais roim que puder.

Servem as palavras precedentes, num tempo que em Portugal a par de “novelas” judiciais ou futebolísticas muito se fala da crise económica, para introduzir a lembrança de dias de um passado não muito remoto (no final do século XIX) onde as agruras da vida se mostravam, para os portugueses, muito mais agudas do que hoje.

Eu sei que todos os leitores, a despeito da quebra de rendimentos observada ultimamente no nosso país, são capazes de reconhecer que no dia-a-dia do terceiro mundo a realidade material se apresenta muito mais constrangedora para a generalidade da população. Acrescentaria ainda que sendo certo que o mal do nosso vizinho não atenua forçosamente as nossas dificuldades pessoais, convém sempre lembrar que a pobreza mede-se também por critérios comparativos (pobre na União Europeia, por exemplo, é aquele que detém menos de 60% do rendimento médio nacional).

Pode compreender-se, contudo, que muitos portugueses, preferindo fixar-se em imagens mais felizes e constatando alguma degradação do seu nível de vida (por comparação, por exemplo, com os nossos vizinhos espanhóis ou com o maior consumismo de tempos recentes), evidenciem hoje alguma frustração.

Mas, para não me esquecer do subtítulo deste texto, queria fazer recuar o leitor um pouco mais de cem anos, remetendo-o para os anos de 1891/92 quando em Portugal se viviam tempos de verdadeira crise económica e financeira (o estado português assumirá no início de 1892 a bancarrota, mostrando-se temporariamente incapaz de honrar fielmente os seus compromissos relativos às dívidas anteriormente contraídas).

Face à crise financeira instalada foi imposto o curso forçado das notas (através da publicação de decretos em Maio e Julho de 1891), as quais deixaram desde então de ser convertíveis em metal precioso junto do Banco de Portugal. Porém, a desconfiança da população face ao real valor do “papel das notas” originou dificuldades na sua utilização, em particular com as notas de maior valor que não mereciam crédito nas transacções comerciais, enquanto que as moedas de metal precioso escasseavam crescentemente no mercado em virtude do seu entesouramento.

Em Braga, em 20 de Julho de 1891, ocorre uma manifestação de operários da construção civil, descontentes com a fome que os ameaça, mercê do pouco préstimo das suas remunerações efectuadas em notas.

O jornal bracarense A Correspondência do Norte, relatando este comício de protesto, escreve que um operário que integrava a manifestação conservava no bolso ainda a feria da ultima semana, paga pelos patrões em notas que elle não conseguia trocar, porque quando ia satisfazer as suas dividas contrahidas durante a semana lh’as não acceitavam e acrescentava, mais à frente, reproduzindo as palavras de um dos oradores que morrer de fome, sem dinheiro, admite-se, mas morrer de fome, com dinheiro, é inacreditavel.

Para terminar, em resumo, e ainda que tal não se preste para a propaganda do governo actual, sugiro que sirva ao menos de consolo o facto de as notas hoje disponíveis no bolso dos portugueses serem poucas, mas de feição apreciada, contrariamente ao que acontecia em 1891, quando eram poucas e de fraco valor…

1 Ver J. Copans e outros in Antropologia Ciência das Sociedades Primitivas?, Edições 70, Lisboa, s/d, p. 151 (traduzido da edição original francesa, de 1971).




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