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«Não estamos aqui para ver os comboios passar»

Foi com muito espanto que na passada quinta-feira, quando na mesma ocasião passava na televisão a transmissão do jogo europeu do Benfica, fui encontrar o salão nobre da Associação Comercial de Braga mais que repleto, com pessoas de pé no fundo da sala, para participarem na primeira sessão da segunda série de conferências do Fórum de Economia que, em boa a hora, a ACB resolveu empreender.

N/D
9 Mar 2004

Essa estupefacção não se prende com o jogo de futebol, nem com a qualidade dos conferencistas, mas pela comparação que logo fiz com a conferência do antigo ministro das finanças e governador do Banco de Portugal, Silva Lopes, que deu início à primeira das conferências, na altura com o intuito de comemorar os cento e quarenta anos da Associação Comercial de Braga, conferência essa que foi presenciada por poucas pessoas e quase completamente ignorada pela imprensa. Nessa ocasião, para além do reverendíssimo Arcebispo Primaz, só me recordo da presença do ilustre vimaranense e ex-governador civil de Braga, Dr. Fernando Alberto. Do resto, éramos todos ilustres, mas presenças anónimas.

Nesta primeira sessão da segunda série de conferências, apinhavam-se ilustres conhecidos da nossa região, onde se destacavam desde logo o presidente da Associação Industrial do Minho, o senhor Reitor da Universidade do Minho e dois Vice-Reitores da mesma Universidade. Certamente que a sua presença nada tinha a ver com o facto do principal conferencista ter um papel fundamental na distribuição dos muitos milhões de euros que a Comunidade Europeia nos irá entregar, mas sim no papel catalisador que começam a ter nas opções estratégicas que esta região carece de tomar.

Felizmente, parecem, e são de certeza, pessoas que vêem mais para além de um campo de futebol ou de uma mesa da sueca, que, convenhamos, também faz bastante falta existirem pessoas assim. Daí que, depois dos conferencistas, o debate também se eleve, e se fale do que é, ou poderá vir a ser relevante para o bem-estar da comunidade, como a região de conhecimento em que se poderá apostar, a paragem ou não do comboio de alta ou média velocidade, as cargas fiscais elevadas em relação aos nossos vizinhos espanhóis, a aposta na inovação e design, a ameaça do leste da Europa para alguns dos nossos sectores produtivos principais e o problema da invasão dos produtos chineses e da Índia.

Não posso deixar de registar a afirmação do Dr. Arlindo Cunha, presidente da CCDRN, em relação ao TGV, dizendo que «não estamos aqui para ver os comboios passar». Para além de comungar desse desejo visto o projecto ser irreversível, e já mais do que uma vez o ter expresso, a região não pode ficar de fora. Seria bom que outros intervenientes regionais tomassem uma posição mais activa.

Noutro sentido, os empresários legitimamente queixam-se dos impostos, nomeadamente do IVA, como factor desequilibrador de concorrência com Espanha. De facto, as principais taxas de IVA espanholas são mais baixas do que as portuguesas. Aos nossos 5% a Espanha apresenta 4%, e aos nossos 19% os espanhóis pagam 16%, o que naturalmente torna o produto para o consumidor final mais barato em Espanha. No entanto em Espanha relativamente ao seu maior vizinho, a França, a situação de diferencial ainda se torna maior, porque para os 4% de Espanha a França apresenta 5,5% e para os 16% a taxa francesa é de 19,6%. Com os impostos indirectos verifica-se exactamente a mesma situação.

Por exemplo, a gasolina verde 95 ronda em Espanha os 83 cêntimos, em Portugal 1 euro, e em França 1,10 euros. Esta situação conseguida pela Espanha reside no facto de nos últimos anos ter empreendido uma reforma da economia sem hesitações, enfrentando a ineficiência do Estado e as situações de corporativismo e, sobretudo, pensando no bem-estar de todos e não no dos instalados, com a criação de quatro milhões de empregos reais, na maior parte dos casos especializados, ao contrário do emprego artificial em cursos de formação de duvidosa aplicabilidade.

Os espanhóis responderam com uma maioria absoluta nas anteriores legislativas. Portugueses e franceses continuam a pagar uma ineficiência, em muitos casos não só assustadora, como dramática, com o que se passa sobretudo na Educação, Saúde, Justiça e Segurança Social.




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