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Os debates mensais

Os debates mensais que se fazem na Assembleia da República são, ou continuam a ser, um palco ideal para as palavras. Deveriam ser as acções a justificar as palavras e não as palavras a justificar as obras, ou a falta delas. Não estamos seguros da utilidade destes confrontos verbais, pelo que eles têm de muita parra e pouca uva. Há verborreias que se não justificam.

N/D
8 Mar 2004

O governo é o único beneficiado com o tiroteio a que se submete porque pode corrigir objectivos, afinar estratégias e definir novas metas. Ouvir os adversários é criar defesas óptimas. Quem de si ouve ao espelho se mira. Por sua vez a oposição nada beneficia uma vez que queima os cartuchos que possui e depois nada lhe restará para queimar. O tom da discussão desta última sessão foi do pior, quer do vocabulário usado pelo Primeiro-ministro, quer o que saiu das bocas dos que se lhe opuseram.
Não há, nem num, nem noutros, elegância na forma, nem educação capaz para evitar um clima de combate de boxe. E pensamos nós: e é para isto que o Parlamento pára um dia? E é para isto que a governação fica inoperante? Será para isto que escolhemos os deputados e o governo? Não seria bastante mais agradável de ouvir e mais proveitoso para a Nação escutá-los num tom de efectiva prestação de serviço à coisa pública do que ouvi-los nas censuras constantes, no despique das palavras acres, nos risos cúmplices que se estampam nas caras de alguns figurantes? Isto é uma desolação.

Se fosse aquilo um caudal diríamos que vai seco. Somos daqueles que julga que os debates devem servir para uma mais valia e não uma vozearia de sons e palavras ocas e de sentido perjurativo. No último debate a que assistimos pela televisão, a única preocupação daqueles ilustres senhores era apenas uma: o défice abaixo dos três por cento. O governo cantava loas a si mesmo pelo êxito alcançado: o défice tinha sido inferior aos três por cento; só em política é que louvor em boca própria não é vitupério.

Estranha excepção. A oposição, tentando retirar-lhe os louros, argumentava que tal sucesso não passava de um artifício financeiro. Só em política a inveja não é um defeito. Estranha moral. E nós, que não somos governo, nem oposição, estamos a dizer entre dentes, com muita raiva e algum espanto: mas cuida o governo que não sabemos todos como conseguiu os 2,8%? Que não sabemos que, quando não tiver nada para alienar, este sucesso desaparecerá como fogo de artifício em noite de arraial? Que só é belo enquanto estraleja? E cuida a oposição que nós estamos tão cegos assim, ou tão arredados da governação do País, que precisemos que nos digam como estas coisas se passam? Então não sabemos que se vendem as jóias quando os dinheiros não chegam a casa?

E uns e outros, como ratos que têm litígio na partilha do queijo, não se dão fé, no seu desentendimento, de quanto são ridículos e pretensiosos ao julgarem-nos pessoas menores e incapazes de entender estas coisas! Percebemos muito bem, muito melhor do que pensam ou julgam, não precisamos que nos expliquem por escrito. Acordem para esta realidade: o povo português, nem é parvo, nem néscio e já acordou há 30 anos; desde aquela gloriosa manhã de 25 de Abril de 1974 que abriu os olhos e os ouvidos para entender os superiores interesses da sua Nação.

Não acreditam Vossas Excelências, senhores do Parlamento, que se desacreditam com estas atitudes de conversas fiadas? Pois então, “parem, escutem e olhem” o desinteresse que anda por aí no que diz respeito à classe política. A este espelho podereis ter uma imagem distorcida.




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