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Em busca do discurso substantivo

Recentemente um político (pouco importa o partido ou até o posto que ocupa) dizia em jeito de aviso: agora vamos apresentar (também não interessa o assunto ou talvez até interessasse!) um discurso mais substantivo.

N/D
8 Mar 2004

Desta forma parece querer dizer que a fase dos adjectivos – isto é, do dizer sem conteúdo, vazio de… – está prestes a passar ou descobriram – qual eureka da era dos computadores – que nos têm andado a entreter, a desviar a atenção para coisas secundárias ou mesmo a enganar com certo palavreado.
Mesmo nas matérias ou temas mais simples certamente já todos encontramos pessoas de conversa fácil, que fazem até da verborreia o ganha-pão ou mesmo já adquiriram uma tal forma de estar em que o falar se torna sinal de conquista, tal a tentativa de ludibriar o parceiro ou de dizer muito sem convencer nada. A esse tipo de pessoas designa o dicionário de charlatães, vendedores de banha da cobra, fomentadores do conto do vigário ou, simplesmente, vigaristas.

Quem não terá tido já uma má experiência com algum desses? Isso nos tem, certamente, servido de prevenção para futuros assédios. Mas há sempre novas formas e fórmulas deste tipo de discursos pouco substantivos e mais adjectivados!…

* Com facilidade vemos crescer a adulação. Nalgumas situações parece ser já uma instituição nacional. Se alguém quer um bom emprego tem de saber elogiar o dirigente do partido – esteja no poder (autárquico, do governo ou noutro sector) ou em vista de o conquistar – o chefe de secção, o director, o responsável do relatório sobre algum desempenho, o coordenador de serviço… Mesmo que recorrendo a algum expediente de uma prenda, um presente, uma atenção por qualquer favor conseguido ou a solicitar.

Quantas vezes vemos certos elogios com cheiro a algo mais do que reconhecimento ao mérito ou de incentivo para servir melhor! Quantas vezes se podem calar vozes incómodas com títulos (mesmo que hono-ríficos) ou promoções por bons serviços! Quantas vezes se pode ser usado (mesmo com boa intenção) para estar comprometido com certos silêncios ou, pelo menos, para deixar de fazer ondas! Quem não terá já visto isso em si e à sua volta?

É preciso, por isso, ter lucidez para discernir e coragem para dizer que não ou mesmo para ser capaz de tolerar se isso for melhor para todos!

* Com grande impacto vemos crescer o culto da imagem. Nessa ânsia de impressionar o melhor possível sentimos que uma boa imagem – isto é, uma figura apresentável, mesmo que oca de valores e princípios – faz ganhar concursos, vender produtos, cativar eleitorado, fidelizar clientela… Poucas pessoas – das ditas públicas ou de impacto social – vivem já sem um gabinete de imagem, que faz vestir o que melhor impressiona, dizer o que melhor seduz ou frequentar os lugares mais “in” da praça, da sociedade ou do “jet-set” campesino na cidade.

É com estes e estas que temos de ter cuidado, pois muitas vezes não sabemos se os adjectivos que usam correspondem a nada ou a qualquer disfarce. Não é difícil encontrar figuras, sem nada na cabeça, à frente de serviços e repartições. Quem não terá, infelizmente, esta experiência? Está na hora mais de ser e menos de parecer!

* Com certo afã vemos aumentar uma certa busca de protagonismo. Ao fim e ao cabo todos somos protagonistas do nosso mundo – seja ele maior ou menor, mais ou menos visível – e, de uma certa forma, podemos ganhar, mesmo sem nos darmos conta, tiques de vedetismo. Assim nos possam ajudar os que connosco vivem, tratam no dia a dia e com quem crescemos no contacto humano, espiritual e cristão. Que os defeitos dos outros nos sirvam de espelho para a nossa correcção contínua…

A Quaresma é, para os cristãos católicos, esse tempo favorável de conversão… substantiva!




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