Fotografia:
A cadela do presidente

O título do artigo não é simbólico ou de brincadeira, como podia parecer à primeira vista, e por isso não o ponho entre aspas; corresponde mesmo à verdade (a cadela era mesmo cadela e o presidente é mesmo presidente…), e podemos afirmar, desde já, que representa mais um caso em que a realidade supera a ficção…

N/D
5 Mar 2004

No dia 23 de Fevereiro, um jornal publicou e com honras de contracapa (e é possível que outros o tenham feito) uma “sensacional” e “importante” notícia: morreu a cadela do presidente dos Estados Unidos da América, que dava pelo nome de “Spot”.
Afirma o jornal (e não tenho razões para duvidar da afirmação) que a notícia foi dada não por qualquer tablóide, ou qualquer outra imprensa sensacionalista que não tinha nada mais importante que dizer, mas nada menos que pela Casa Branca…

Mais ainda, a notícia, se bem que pequena, dá pormenores vários e “importantíssimos” sobre o canídeo. Concretamente que toda a família Bush «está profundamente entristecida», acrescentando que «era membro amado da família» (sic!: nada de confusões – sic é latim e significa “assim mesmo”…) e ainda que «será recordada com saudade». Acrescenta, para informação do mundo inteiro, a raça da cadelinha, que tinha manchas castanhas na pele, a data de nascimento e o nome do pai da dita cuja (“Millie”), que, por sua vez, pertencia ao pai, aqui do actual presidente, também Bush, claro! Da mãe nada consta, talvez pelas piores razões…: «enternecedor», triste, ridículo, trágico… Na realidade, faltam–me as palavras para classificar tão grande e hilariante patacoada.

Mas por trás desta notícia que parece mais anedota que realidade (e vem confirmar que certos factos reais excedem o anedótico), está algo de muito sério. E esse “algo” é que a América como nação (entre as pessoas haverá um pouco de tudo), continua a pensar (até quando?…) não só que é o umbigo do mundo, mas que, praticamente, e em termos de importância, só ela existe no mundo e que, portanto, tem que “dar cartas”, controlar tudo e todos.

Tudo o que diz respeito à América tem que ser sabido pelo mundo inteiro (e quando for possível na Lua e em Marte…), mesmo que seja uma coisa tão banal como a morte de um cão, perdão, cadela…
E as “ramificações” de factos semelhantes são mais que muitas e dariam para muita conversa.

Somente alguns exemplos.

O Tribunal Internacional tem poder decisório em relação a muitas nações, mas não pode ter em relação à América não se sabe porquê; a América não assina o “Protocolo de Kyoto”, porque «não convém aos interesses dos Estados Unidos», como declarou Bush na ocasião (ao menos foi sincero…); os brasileiros (e penso que todos, mas a imprensa falou, há tempos, sobretudo dos brasileiros), são obrigatoriamente inspeccionados ao entrar nos EUA, mas os americanos não o podem ser no Brasil…

Se morre um soldado americano no Iraque ou em qualquer outra parte do mundo (e não digo que não seja para lamentar), toda a gente tem que o saber, mas se morre um soldado de outra nação já não interessa demasiado, e o assunto nem sequer é, talvez, mencionado. E poderíamos continuar a enumeração em relação às pessoas que morrem diariamente de fome, de sida, de malária, etc., e das quais ninguém fala, porque esses factos não acontecem na América do Norte.

Mas o que acabo de dizer não se aplica somente a quem divulga, em primeira mão, as notícias – aqui a Casa Branca. Também os meios de comunicação social que os publicitam têm a sua quota parte de culpa. Com efeito, estes e outros acontecimentos perderiam importância, melhor, não a ganhariam, se não se falasse neles. Um conselho: quando não tiveram mais nada que dizer ou escrever, escrevam ou digam uma anedota “a sério”, porque as “anedotas” como aquela de que estamos a falar não têm piada absolutamente nenhuma, e são mais para chorar que para rir…

George Orwel tinha toda a razão, ao afirmar no seu livro Animal’s Farm (título muito mal traduzido para português por Triunfo dos Porcos), no seu humor inglês bem cáustico, mas verdadeiro: «Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros». Aqui o animal é (era) uma cadela e de modo nenhum igual a qualquer outra, não propriamente por não ser uma rafeira, mas porque era americana!

Aplicando isto às nações e aos homens (que também são animais, e até são racionais, enquanto não se provar o contrário…) que compõem as mesmas é ainda muito mais verdade.

Amigos americanos, acordem para a realidade que é bem evidente, mas na vossa terra muitos parecem desconhecer: a América é grande, mas a terra é maior, bem maior, e por mais poderosos que vocês sejam em meios económicos e militares (noutros “meios” as coisas já seriam mais discutíveis!), não podem, nem devem querer ser o paradigma universal, em categorias éticas, modo de vida, etc., etc., nem querer mostrar que tudo o que aí se passa é importante, nem que seja a morte de uma cadela, ou uma senhora que mostra a maminha em público ou um presidente que se mete com a secretária (salvas as devidas diferenças…).




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