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A arte da demagogia

Uma das grandes artes que tem permanecido ao longo dos séculos é a da demagogia, sempre aliada a uma boa retórica.

N/D
4 Mar 2004

Tão bem ou melhor que o mais conceituado fármaco, a demagogia anestesia as pessoas. Cria um mundo de maravilhas no qual as alices se sentem extasiadas. Aliena. Gera sociedades virtuais onde tudo se resolve como que por encanto.
Além de enganar, a demagogia procura não desagradar. Por isso o demagogo não exige. Por isso o demagogo não proíbe. Por isso o demagogo segue a lógica do vale tudo. Por isso o demagogo tudo facilita e a tudo fecha os olhos. Por isso o demagogo não propõe princípios nem regras. Por isso o demagogo actua como se a liberdade não tivesse limites e como se a mesma liberdade não devesse estar unida ao sentido da responsabilidade.

Embora a muita gente pareça que não, a verdade é que a demagogia só a aproveita ao demagogo, porque, como dizem os espanhóis, ainda que a mona se vista de seda, mona se queda. Por muito que o demagogo pretenda colorir a realidade, a realidade mantém-se. Quando os anestesiados retomarem a consciência, caem das nuvens. Mas, entretanto, o demagogo levou a sua por diante, e, habilidoso como é, soube arranjar-se.

O demagogo não tem grandes escrúpulos na gestão dos dinheiros da comunidade. Utiliza-os como um instrumento ao serviço da sua demagógica estratégia, muito mais do que ao serviço dos reais interesses da mesma comunidade. Por isso gasta em folclore. Por isso gasta em foguetório. Por isso promove festas. Por isso esbanja.

O demagogo tem o condão de pôr alegria nos momentos mais tristes e de ver estrelas na noite mais cerrada.

O demagogo diz a verdade, pois seria o cúmulo do descrédito ser apanhado em mentira. Mas só diz a verdade que lhe convém, quando lhe convém e como lhe convém. Apenas salienta o aspecto da verdade que lhe interessa destacar. «Ignora» questões essenciais que podem comprometer.

O demagogo vive mais de projectos do que de realidades. Sabe apresentar «as melhores e mais viáveis soluções» para os mais intrincados problemas; simplesmente, não as põe em prática. Diz como se deve fazer, diz que há-de fazer, mas não faz. Para ele, a oportunidade para agir está sempre mais adiante. E tem artes de convencer as pessoas de que lhes é mais vantajoso saberem esperar… por tempos que nunca vêm.

Dando-se ares de altruísta e de compassivo; manifestando teatralmente uma grande sensibilidade para com a dor alheia, não passa de um refinado egoísta que coloca sempre em primeiro lugar os seus interesses e as suas conveniências. Sabe ser um grande fingidor e tem sempre à mão uma grande colecção de máscaras para usar nas diversas circunstâncias.

O demagogo tem a rara habilidade de aparentar que economiza quando desperdiça, de mostrar generosidade quando é mais que forreta, de convencer que serve e se sacrifica quando se serve e se promove.

Era bom que todos se apercebessem das manobras do demagogo e soubessem desmontar os seus esquemas, mas há pessoas que nem sempre o conseguem e outras que nem sempre o querem fazer.

Há quem prefira viver na ilusão a ter de enfrentar a realidade. Há quem sinta um sádico prazer em ser enganado. Há quem, dando realidade ao dito popular de «quanto mais me bates mais te quero», goste de dar vivas e de bater palmas a quem dele se serve e habilidosamente o explora. E já que assim é, o demagogo sente-se encorajado e compensado. E continua. Por isso a arte prospera.




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