Fotografia:
775. Senhor Ministro da Administração Interna:

1Cena Um: O automobilista rola, calmamente, estrada fora, latinhas cansado, a resfolgar. Também não tem pressa e toda a cautela é pouca, pois o perigo espreita a cada curva.

N/D
3 Mar 2004

Eis senão quando uma carrinha se aproxima com quatro jovens barulhentos e azougados. Ao ultrapassar o latinhas, buzinam, furiosamente, gesticulam obscenidades, insultam o automobilista.
Este segue-lhes no encalço. Chegados à cidade, a carrinha estaciona e os jovens saem. Chega o latinhas, pára ao lado, o automobilista apeia-se e pede explicações ao grupo.

Um dos jovens avança ameaçador, punhos cerrados e palavrão fácil. Os demais riem-se e apupam. O automobilista saca da pistola e dispara. O jovem cai morto.

2. Cena Dois: São dois vizinhos pouco dados a intimidades e bate-papos de vão de escadas. Um mora no quinto andar e o outro no sexto. O do quinto é um cidadão educado, civilizado, cumpridor; já o do sexto é do género quanto pior melhor: barulho a desoras, lixo pela janela fora, desrespeito pelos espaços comuns.

Há dias, cruzam-se nas escadas. O do quinto chama-lhe a atenção para os deveres de condómino que não acata e para a sem-razão da sua atitude. O do sexto não gosta, replica e insulta. O do quinto riposta, avança para o do sexto e envolvem-se numa luta encarniçada! Resultado: ambos a receber tratamento hospitalar.

3. Isto, senhor Ministro, de sermos um povo de brandos costumes já não é o que era. Hoje, somos já um povo de maus e feros costumes. A violência cresce entre os cidadãos. E a instabilidade e insegurança instala-se a cada dia que passa.

Já não é possível, sem sobressaltos, sair à noite nas grandes cidades. E até nos pequenos aglomerados a paz e serenidade se rompe, frequentemente. O medo tolhe mesmo as pessoas!

A toxicodependência, a exclusão social, o desemprego e a marginalidade são a causa primeira do roubo, da violência, do crime organizado, diz-se. Também as fronteiras abertas nos trazem muito lixo do exterior, acrescento eu. Lixo humano, obviamente. Já tínhamos as nossas misérias e fraquezas e agora ainda temos de arcar com as misérias e fraquezas dos outros!

Depois, senhor Ministro, tivemos um 25 de Abril só de direitos! Falta-nos, agora, um 25 de Abril só de deveres! Que nos restitua a ansiada paz social. E antes que o descrédito na democracia e nas suas virtudes vença o já decrépito optimismo do povo!

E até para que o Francisquinho não insista na sua velha teoria de que só há uma maneira de acabar com a bagunça: encerrar durante a semana, à meia-noite, os estabelecimentos de diversão nocturna e, a seguir, mandar o exército para as ruas!

Com os melhores cumprimentos e até de hoje a oito!




Notícias relacionadas


Scroll Up