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O síndrome do irmão desejado

Não sei, em abono da verdade, se algum psicólogo ou psiquiatra infantil já definiu o Síndrome do irmão desejado. No entanto, se não constitui tal designação uma descoberta da ciência, quase se poderia deduzir a sua existência real. Para o efeito, bastaria ler uma entrevista concedida por um conceituado neuropsi-quiatra italiano, Giovanni Bolea. Pôde verificar experimentalmente que, num país carente de natalidade, muitas das crianças que os pais condenaram a ser filhos únicos, acabam por brincar com os irmãos que não têm, através da extraordinária e fácil imaginação da sua fase etária.

N/D
2 Mar 2004

Não é difícil congeminar a existência de um rapazito, filho único, objecto do carinho atencioso e exclusivo do pai e da mãe, dos quatro avós e de não sei quantos mais familiares, que confessasse com aparente naturalidade que os seus pais não lhe tinham querido dar um irmão, a fim de que ele não ficasse privado de tudo aquilo que eram forçados a dividir por mais filhos, se os viessem a conceber. Observaria com duvidoso orgulho que assim era melhor, porque tinha tudo quanto queria, já que os pais não lhe podiam negar nada.

Achava-se, porém, muito sozinho e bastante contestado no seu ambiente escolar. Detestava os colegas, que considerava agressivos e brutos. Falava com poucos e mostrava-se sempre receoso de mostrar o que trazia de casa. Por isso, não achara melhor sítio para comer as guloseimas que escondia na sua sacola do que o quarto de banho, com as portas bem fechadas. Outro lugar da escola taxaria de perigosíssimo, porque os seus colegas, chatos e cretinos, sempre queriam que as compartilhasse com eles. Confidenciaria ainda que era observado por um psicólogo e também por um psiquiatra, a fim de que a sua integração no centro de ensino se processasse sem sobressaltos.

Entretanto, os seus pais, muito preocupados, atafulhavam-lhe o quarto com mais jogos de computadores, mais brinquedos e deixavam no frigorífico todas as vitualhas com que uma criança gosta mais de sonhar do que – quem sabe? – saborear.

Pois na Itália, a criatividade deste ser isolado, filho único à força, parece exímia a imaginar situações em que convive com um irmão. Tem tudo o que de materialmente se exige. A televisão, com a sua boca escancarada, conta-lhe histórias sobre histórias, apresenta-lhe heróis e heroínas que ele assimila como padrões da sua cultura e do seu modo de ser.

Não sendo esse mundo real, eis a criança entregue à sua solidão enfermiça. Dela sai triste e até enjoada para, de seguida, abrir o frigorífico e comer não sei que coisa boa.

Coisa boa? Não há disso quando a náusea e o fastio duma vida sem relação faz nascer no seu protagonista todos os temores, todas as dúvidas e todas as incertezas, que dão trabalho a rodos aos nossos psiquiatras.

Será difícil de perceber que o facto de uma criança imaginar, no ermo frio e silencioso da sua casa, que assiste a um programa com outra que a estime, com quem fale, ou mesmo até, com quem bulhe, e a quem possa chamar irmão, é uma manifestação do que há de mais íntimo nos seus anseios, apesar de o receio da partilha lhe haver sido incutido pelos pais, como uma espécie de vacina de egocentrismo preventivo? E se, com a sua fantasia característica, a “baptiza” com um nome próprio, não pretende dar assim mais realidade ao seu desejo e fugir do horizonte de anacoreta compulsivo a que os pais a sujeitam?

Giovanni Bolea não hesita em afirmar que muitas das suas consultas terminam sempre com uma terapêutica simples, que ele prescreve dum modo literal, perante, talvez, a perplexidade dos pais, que esperavam, provavelmente, um tratamento sofisticado, acompanhado de um sem número de leituras e de acções complexas, a que eles deveriam prestar o maior cuidado.

Mas não. Tudo se resume a uma decisão simples, que dará novo sentido à vida familiar. Poderá torná-la, possivelmente, um pouco mais exigente, mas nem por isso menos atractiva. É um tratamento antigo, altamente ecológico, porque obedece às leis da natureza humana e evita todos os problemas de quem, neste aspecto muito específico, odeia a ecologia ou a põe de parte, como se ela não fosse uma realidade a ter em conta.

O que receita, então, Giovanni Bolea? Tão só: um irmão, o mais tardar dentro de um ano.




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