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O Despotismo (Continuação)

Visto estar gravada, indelevelmente, na raíz de nossa natureza humana, a obrigação de satisfazer, por parte da pessoa humana, a necessidade profunda de conservação de sua vida existencial e de seu bem estar, segue-se, portanto, que a pessoa humana, ser inteligente e livre de estabelecer relações ajustadas e progressivas com a realidade total, ou seja, com a outra pessoa, com a Natureza e com Deus, tem de cumprir esta obrigação por coerência com a vontade e o desejo de sua própria natureza.

N/D
2 Mar 2004

Este cumprimento tem, para a pessoa humana, a força de uma ordem. É uma obrigação inalienável. É um mandato que tem o seu princípio no coração de nossa própria natureza humana. Segue-se daqui que a vontade e o desejo de nossa natureza é o de assumir, categoricamente, a vida; enquanto a vontade e o desejo da mãe grávida, ao aceitar, em si própria, o desenrolar da prática abortiva, é o de assumir a morte do feto, ao dizer: quem manda em nossas barrigas, somos nós. Levanta-se, pois, aqui, um claro desajustamento de vontades e de desejos. Há, pois, aqui, despotismo, quando o desejo de morte, dominando, se impõe ao desejo de vida.

É despótica a vontade daquele que, para dominar, se serve de sua autoridade opressiva, cruel, tirânica, arbitrária e ditatorial, sobre alguém.

É despotismo ir contra a vida existencial, matando o ser que se encontra em gestação.

É despotismo impedir, voluntariamente e com crueldade, a colaboração do organismo biológico na evolução para a maturidade daquele ser pequenino, ainda enrolado, como o galho de árvore, no ventre de sua mãe.

Assassinar é despotismo.

Mas há uma outra maneira de matar e, portanto, de assassinar. Quando alguém tira ao outro a liberdade a que esse outro tem direito, direito esse que sua natureza lhe outorga. Campeia, então aqui, a ditadura, o autoritarismo e também o despotismo.

Mas despotismo é também o suicidar-se. Ei-lo neste prato, temperado de auto-justificações e auto-racionalizações e polvilhando por uma boa arquitectura de raciocínios, cujo conteúdo é o das apaladadas rejeições, das marginalizações e desvalorizações. É o suicidar-se lentamente, pois semeia no outro o desprezo por si e cultiva, em si, o isolamento cruel.

Há, a meu ver, uma correlação muito estreita entre o despotismo, o assassínio e o suicídio.

Consequências de tudo isto: baralha-se, em seu interior, a ordem; estala a harmonia; congela-se a paz; tirita de frio a felicidade; e recebem ordem de despejo a alegria, a satisfação e o contentamento.




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