Fotografia:
Os ponteiros… da política (já) funcionam?

Para explicar a arte da política – no sentido amplo e genuíno do termo – o professor José Hermano Saraiva comparava-a ao mecanismo do relógio, cuja máquina não vê de imediato, mas que sabemos que existe, percebendo-se no mostrador a movimentação interna. Aos políticos, o historiador televisivo chamou os «ponteiros», numa alusão ao que estes significam como sendo sinais indicativos e reveladores de toda a orgânica que não se vê, mas que faz fazer, lendo o que nos dizem, para onde apontam e qual o ritmo que marcam.

N/D
1 Mar 2004

Numa época de descrença e/ou descrédito de quem anda na vida pública torna-se urgente reflectir – até pela proximidade aos trinta anos da democracia na terceira república em Portugal – sobre as causas desta hipocondria social, desta desmoralização colectiva e dessa ambiguidade de tantos intervenientes.
Por vezes há sinais pouco abonatórios daqueles que estão na vida pública – seja política, seja associativa ou mesmo desportiva e até eclesial – pela forma como parecem entender o seu trabalho. Há regalias, benesses, promoções, projecções… postos e poleiros, evidências e eminências, coberturas e encobrimentos… que, no mínimo, podem colocar suspeita.

Não faltarão tristes e inúmeros exemplos – talvez menos do que se diz e mais do que se pensa – disso que habitualmente se rotula de compadrio, nepotismo, lóbis ou pagamento de favores.
Apesar de tudo há pessoas sérias, competentes e honestas no trato com as coisas dos outros, na decisão do bem público (res-publica) e de quando é decidir em favor do bem comum.

É sintomático que a Igreja Católica tenha, desde o início do novo milénio cristão, inscrito nos actos da Santa Sé, pelo menos dois documentos sobre a função dos políticos cristãos. Com efeito, a 31 de Outubro de 2000, João Paulo II escreveu a Carta Apostólica em forma de Motu Proprio ‘E Sancti Thomae Mori’ pela proclamação de São Tomás Moro como padroeiro dos governantes e dos políticos, por ocasião do Jubileu dos governantes e dos parlamentares, que decorreu em Roma a 4 e 5 de Novembro do ano jubilar. Por seu turno, a Congregação para a Doutrina da Fé, tornou pública, a 24 de Novembro de 2002, uma Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política.

Certamente se pede – talvez se deva dizer: exige – aos cristãos presentes na vida pública (e concretamente na política) um testemunho de verdade, de isenção, de lealdade, de justiça, de paz… com todos, para todos e por todos. Estarão os cristãos atentos à sua responsabilidade na vida política? Teremos todos a noção clara do compromisso na vida política, mesmo que ‘sujando-nos’ nas teias da necessidade partidária? Quando temos de votar escolhemos em razão das propostas ou da ideologia? Apesar do mal menor de termos de partidarizar as escolhas, olhamos às pessoas que dão a cara pelos desafios apresentados? Teremos a consciência de que não votar – seja qual for a eleição – é pecado grave?

E, por último, perguntamos ainda: os ponteiros estarão mesmo afinados, bem aferidos e suficientemente equilibrados?




Notícias relacionadas


Scroll Up